Áreas foram compradas para transformar florestas em dormentes para a Estrada de Ferro Vitória-Minas. Uma visão de futuro mudou o destino do projeto. Em vez de devastação, preservação. Atualmente, a Reserva Natural Vale é um rico patrimônio da humanidade.

 

Matéria originalmente produzida para o site da SD Viagem.

 

O surgimento da Reserva Natural Vale é resultado de um processo bastante singular. Ela foi iniciada com a compra de áreas de florestas nativas, a serem destinadas à exploração da madeira. Mas, em determinado momento de sua trajetória, pessoas com visão muito além no futuro, inverteram esse processo. E transformaram aquele pedacinho de Brasil num dos mais importantes centros de preservação da Mata Atlântica em todo o mundo.

A rodovia BR 101 era apenas uma via rasgada sobre a terra, e o Norte do Estado do Espírito Santo ainda exibia boa parte do seu território coberto por matas, quando, em 1955, a então Companhia Vale do Rio Doce — CVRD comprou a primeira propriedade junto ao quilômetro 121, no Município de Linhares. O objetivo era livrar a empresa de ter de pagar muito caro pelos dormentes utilizados na Estrada de Ferro Vitória-Minas.

 

Dormentes para a Estrada de Ferro Vitória-Minas

 

Com um estoque próprio de árvores para serem derrubadas e beneficiadas, não haveria problemas de manter em funcionamento a rota de escoamento do minério de ferro vindo do Quadrilátero Ferrífero do Estado de Minas Gerais. O ponto final de exportação era o Cais do Atalaia, situado em Paul, bairro da cidade de Vila Velha, Município no litoral do Estado do Espírito Santo, bem ao lado da capital do Estado, a cidade de Vitória.

Como naquele momento ainda havia grande oferta de toras no mercado, com a expansão da extração madeireira também para a Região Sul do Estado da Bahia, as operações de corte dos troncos foram deixadas de lado. Mas, com o início das operações do complexo em construção na Ponta de Tubarão, no limite Norte do Município de Vitória, era hora de ampliar a capacidade de circulação de trens na estrada de ferro, duplicando as linhas.

 

Engenheiro florestal levanta potencial madeireiro

 

A demanda por dormentes de madeira, até aquele momento usados apenas em reparos ou criação de pequenos ramais, iria crescer significativamente. Era preciso conhecer o volume possível de ser extraído das fazendas compradas pela empresa. Assim, em 1963, oito anos após a compra da primeira propriedade, a CVRD contrata Dammis Heinsdijk, um renomado engenheiro florestal, para fazer o inventário do que poderia ser utilizado.

Como de 1955 a 1963 a CVRD seguiu adquirindo propriedades contíguas à primeira, as áreas das terras próprias, somadas, já equivaliam a mais de 60% do território da Reserva Natural Vale atualmente. Para conhecer a fundo aquele manancial florestal, precisava-se circular com facilidade dentro dele. Era necessário abrir picadas e, mesmo sabendo que seu trabalho visava devastar toda aquela beleza, Dammis Heinsdijk, não fez isso a esmo.

 

Árvores abatidas na abertura de vias são aproveitadas

 

Ele traçou os caminhos de forma a impactar o menos possível no conjunto. O primeiro cruzando o terreno de Leste para Oeste, indo da BR 101 em direção ao mar. Esta via existe até hoje, agora batizada de Estrada do Flamengo. O segundo começava mais ou menos no final do primeiro, de Sul para Norte, a atual Estrada da Mantegueira. Uma terceira interligava essas duas, em diagonal, agora batizada de Estrada Cinco Folhas.

As árvores abatidas para a abertura desses acesso foram aproveitadas na produção de dormentes, servindo como base para os planos de exploração a serem iniciados o mais breve possível. De posse dos estudos entregues por Dammis Heinsdijk, a CVRD criou a Superintendência de Estudos e Projetos Florestais, contratando o engenheiro agrônomo Mário Borgonovi para comandá-la e iniciar o aproveitamento da madeira rapidamente.

 

Mata nativa sob risco de ser substituída por eucaliptos

 

A intenção era de, após derrubada a floresta virgem, ocupar o solo assim liberado com a plantação de eucaliptos. Estes tanto poderiam ser utilizados como matéria-prima para a indústria de celulose quanto crescerem até seus caules atingirem diâmetros suficientes para serem beneficiados em serrarias, principalmente na produção dos dormentes tão necessários à grande expansão da malha de trilhos da Estrada de Ferro Vitória-Minas.

Entretanto, Mário Borgonovi, influenciado pelas nascentes ideias de preservação do meio ambiente, e com uma visão de mundo bem à frente daqueles tempos, ao deparar com a grandiosidade daquele tesouro, viu ser mais importante sua preservação. E passou a defender esta posição perante a direção da companhia, tarefa das mais difíceis. Lutou contra até uma possível exploração sustentada daquele remanescente de Mata Atlântica.

 

Ideia da preservação vence objetivos de exploração

 

Mário Borgonovi acabou vencendo, tornando realidade a visão de que proteger a mata era algo feito em nome de um bem maior, uma iniciativa produtiva para o País. Assim, as centenas de milhares de árvores lá existentes seguiram intocadas, contrastando com a realidade ao redor. No entorno, com as florestas derrubadas, primeiro vieram os pastos. Depois, lavouras de cana-de-açúcar, café, mamão e eucalipto, além de outras culturas.

Uma coisa chamando atenção é que, fora da Reserva Natural Vale, nem Matas Ciliares, aquelas preservadoras dos cursos d’água, foram poupadas. Assim, nascentes secaram, córregos sumiram e rios, com suas vazões antes perenes, tornaram-se intermitentes. A situação de desertificação só não piorou na região graças aos mananciais preservados tanto na Reserva Natural Vale quanto na sua vizinha, Reserva Biológica de Sooretama.

 

Novas vias permitem acesso a toda a área da reserva

 

Com a floresta livre de ser exterminada para se produzir dormentes ou tornar-se vítima de outro aproveitamento qualquer, novas vias para acesso a todos os pontos da enorme área foram abertas entre os anos de 1967 a 1969. Cada uma foi batizada com os nomes das árvores mais presentes ao longo de seus percursos. Esta malha viária permitiu um acúmulo maior de conhecimentos sobre as riquezas animal e vegetal ali encontrada.

Frente à devastação florestal praticamente irreversível ocorrida no Estado do Espírito Santo, naquele momento sendo repetida no Sul do Estado da Bahia, viu-se oportunidade para a Reserva Natural Vale gerar recursos financeiros com seus acervos naturais. Deu-se início à coleta de sementes e à produção de mudas das espécies mais importantes, visando tanto a preservação das mesmas quanto a comercialização para reflorestamento.

 

Reserva alcança seus limites atuais em 1973

 

Ao mesmo tempo em que a consciência ambiental crescia, a CVRD seguiu comprando terras limítrofes às já possuídas, mesmo estas não tendo remanescentes de florestas significativas. E estas novas áreas eram logo integradas ao processo de preservação. Isso durou até 1973, quando, 18 anos após a compra das primeiras terras, a Reserva Natural Vale atingiu os limites atuais, num bloco final, único, composto por 103 propriedades.

Aquele conjunto foi oficializado como área destinada à proteção em 1978, iniciando-se uma nova era. Garantida assim sua conservação, a Reserva Natural Vale assumiu de vez o status de polo de estudos sobre fauna e vegetação. Um dos primeiros teve o objetivo de definir as melhores árvores para reflorestar as margens e, assim, proteger os enormes lagos artificiais formados por acúmulo de água destinada à produção de energia elétrica.

 

Referência para pesquisadores de todo o mundo

 

Ela também recebeu um posto de levantamento de dados para a formação de previsões de meteorologia. Depois de ser alvo de um inventário florestal entre 1976 e 1977, esta atividade foi sistematizada a partir do ano seguinte, sendo repetida continuadamente. Com o passar dos anos, a Reserva Natural Vale tornou-se referencial obrigatório para aqueles dedicados aos estudos dos biomas, recebendo pesquisadores de todo o mundo.

Seu valor chamou atenção da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura — Unesco, que conferiu à Reserva Natural Vale o título de posto avançado da Reserva da Biosfera da Mata Atlântica. Esta denominação é dada apenas a áreas de reconhecida relevância para a humanidade, tendo sua biodiversidade protegida e onde sejam promovidos o desenvolvimento sustentável e o conhecimento científico.

 

Área de vital importância para os pássaros

 

Outro reconhecimento da importância do trabalho ali sendo realizado vem do Comitê Brasileiro de Registros Ornitológicos — CBRO. Registros desta entidade mostram a Reserva Natural Vale, e sua vizinha Reserva Biológica de Sooretama, abrigando 1.825 tipos diferentes de aves. Este número representa cerca de 60% das espécies originais do Estado do Espírito Santo e por volta de 21% de todas aquelas registradas no Brasil.

Ao tomarem conhecimento destes recordes, os membros da Bird Life International — organização mundial de preservação de aves — deram-lhe o título de Important Bird Area, ou “área importante para os pássaros”. É em virtude desta proeminência que a Reserva Natural Vale tornou-se objeto de consumo dos bird watchers, grupo de turistas que rodam o mundo atrás de pontos onde podem avistar passarinhos vivendo ao ar livre.

 

Matas protegem bacia hidrográfica daquela região

 

Outra contribuição decisiva da Reserva Natural Vale para a região do Norte do Estado do Espírito Santo vem de nascentes e cursos d’água preservados pela cobertura florestal daquela enorme área. Ali dentro, correm 14 córregos — Alberico, Alegre, Alegre de Cima, Amor, Canto, Chumbado, Dois Irmãos, Dourado, Estivado, João Pedro, Menezes, Paciência, Rancho Alto e Traváglia — e os rios Barra Seca, Ibiriba e Pau Atravessado.

Alguns são perenes, casos dos rios Barra Seca e Pau Atravessado e do córrego João Pedro, e os outros intermitentes, mas todos integram a Bacia do Rio Barra Seca. Há, ainda, a Lagoa do Macuco, cuja lado Sul compõe um dos limites da Reserva Natural Vale e o lado Norte fica junto à Reserva Biológica de Sooretama. Considerável também é uma grande área alagável do entorno, formada de brejo, Mata de Várzea e Mata Ciliar.

 

 

Localização da Reserva Natural Vale

 

A Reserva Natural Vale está localizada na Região Norte do Estado do Espírito Santo, às margens do quilômetro 121 da BR 101, área que faz parte do Município de Linhares.

 

Pequena memória da devastação da Mata Atlântica no Norte do Estado do Espírito Santo

 

As fotos a seguir servem para dar uma ideia do que foi a devastação da Mata Atlântica no Norte do Estado do Espírito Santo. Nenhuma refere-se à região do Município de Linhares, e sim da Municípios a Leste e ao Norte deste último: Município de Colatina e Município de São Mateus. Os três tinham seus territórios cobertos por floresta virgem, devastada progressivamente até final do século XX, anos 1900.

As cinco primeiras, são da obra de construção de uma estrada de ferro unindo a cidade de Colatina à cidade de São Mateus, esta situada no extremo Norte do Estado do Espirito Santo. Apenas a ponte sobre o Rio Doce, na cidade de Colatina, e o trecho entre a cidade de São Mateus e a cidade de Nova Venécia foram concluídos. Esta ferrovia foi desativada e desmontada nos primeiros anos da década de 1960.

As quatro fotos a seguir mostram momentos da exploração da madeira. A primeira delas é de um caminhão carregado de jacarandá. A segunda dá a dimensão do diâmetro das árvores abatidas — assim como a última delas. Por fim, uma montagem mostrando um caçador e a onça abatida por ele. Tudo isso remonta a um passado não muito distante, sendo que parte dele ainda vive na Reserva Natural Vale e sua vizinhas Reserva Biológica de Sooretama.

 

Pequena história da formação da Reserva Natural Vale, de proteção à Mata Atlântica

 

Pequena história da formação da Reserva Natural Vale, de proteção à Mata Atlântica

 

Pequena história da formação da Reserva Natural Vale, de proteção à Mata Atlântica

 

Pequena história da formação da Reserva Natural Vale, de proteção à Mata Atlântica

 

Pequena história da formação da Reserva Natural Vale, de proteção à Mata Atlântica

 

Pequena história da formação da Reserva Natural Vale, de proteção à Mata Atlântica

 

Pequena história da formação da Reserva Natural Vale, de proteção à Mata Atlântica

 

Pequena história da formação da Reserva Natural Vale, de proteção à Mata Atlântica

 

Pequena história da formação da Reserva Natural Vale, de proteção à Mata Atlântica

 

Pequena história da formação da Reserva Natural Vale, de proteção à Mata Atlântica

 

 


 

Ficou interessado em conhecer a Reserva Natural Vale? Quer passar lá um final de semana, levando a família? Ou, quem sabe, aproveitar sua estrutura para promover uma reunião da empresa? Ou promover um treinamento? Bom, seja qual for sua intenção, um bom caminho é procurar a SD Viagem: www.sdviagem.com.br.

 

Quer conhecer a estrutura de hospedagem da Reserva Natural Vale? Então, clique aqui.

 

As informações utilizadas para produzir esta história foram extraídas, em sua maior parte, do livro “Reserva Natural Vale, com ensaio fotográfico de Araquém Alcântara, publicado pela mineradora Vale, na cidade do Rio de Janeiro, capital do Estado do Rio de Janeiro, em 2010.