Município de Mariana, no Estado de Minas Gerais, foi dos grandes centros produtores do Ciclo do Ouro. Momentos decisivos da história do Brasil foram vividos em suas casas, igrejas, praças e ruas. Extração de minério de ferro, com seus problemas, é a riqueza da atualidade.

 

Monumentos históricos de Mariana retratam 300 anos de história do Brasil

O Município de Mariana está localizado ao Sudeste do Estado de Minas Gerais, integrando o chamado Quadrilátero Ferrífero, área responsável pela produção de 60% do minério de ferro industrializado no Brasil e enviado para exportação

 

Portugal desperdiça oportunidades de se tornar nação próspera, economia dinâmica, sociedade desenvolvida

 

No final do século XVII, anos 1600, Portugal amargava o resultado de ter desperdiçado sua segunda oportunidade de transformar-se em nação próspera, de economia dinâmica e sociedade desenvolvida. A primeira foi não dar continuidade aos investimentos em cultura, educação, pesquisa e tecnologia patrocinados pelo infante Dom Henrique, que passou à história com o título de “O Navegador”, em meados do século XV, anos 1400.

Uma iniciativa isolada, praticamente individual, mas capaz de ganhos de eficiência e produtividade significativos, tornando um pequeno e inexpressivo país numa potência naval, praticamente sem rival na Europa. Tão forte era esse processo que sobreviveu muito tempo após a morte do seu idealizador, dentro de uma Corte perdulária, com um sistema de Governo cartorial, sem qualquer incentivo à liberdade do empreendedorismo.

O momento seguinte vai de 1550 a 1650, com as riquezas geradas pela cultura da cana-de-açúcar nas colônias ultramarinas: Ilha da Madeira, Arquipélago dos Açores, outros territórios na África e, notadamente, no Brasil. Os recursos daí advindos, em vez de aplicados em infraestrutura ou industrialização — como vinha fazendo a Inglaterra, por exemplo —, foram dissipados cobrindo gastos de consumo e despesas de ostentação.

Os holandeses, depois da fracassada opção de tomar o Nordeste brasileiro do domínio português, foram cultivar cana-de-açúcar nas ilhas do Mar do Caribe. Investimentos adequados, técnicas mais modernas e incentivo ao empreendedorismo individual logo inundaram o mercado europeu com produto de melhor qualidade a preços bem mais vantajosos. Os portugueses perdiam a primazia naquele setor, para nunca mais retornar.

 

Monumentos históricos de Mariana retratam 300 anos de história do Brasil

Planta da reorganização urbana da cidade de Mariana, atribuída ao engenheiro português José Fernandes Pinto Alpoim, com a indicação da casa do bispo no canto inferior esquerdo da imagem, local do atual Museu da Música

 

De potência naval, no final do século XV, ao segundo plano europeu, bem antes do final do século XVIII

 

Portugal logo foi ultrapassada economicamente por todos os seus vizinhos europeus — até mesmo pela Espanha, com Governo e sociedade bastante similares, mas vivendo principalmente do ouro e prata amealhados pelo Novo Mundo. E essa situação intrigava Lisboa: como num território tão grande quanto o do Brasil não se encontravam fontes riquezas similares? Cadê as minas de ouro? Cadê as de prata? E as de pedras preciosas?

O rei de Portugal à época, Dom Pedro II, enviava cartas e mais cartas aos seus colonos no Brasil — notadamente os paulistas, estes já tendo demonstrado serem corajosos e destemidos o suficiente para deixar casas, famílias e até fortunas, arriscando a própria vida para adentrar pelo desconhecido. O monarca praticamente rogava: “Deixem o litoral e partam em busca de descobrir riquezas no interior desta vastíssima Colônia!”

Os indícios eram significativos, mas as localizações nunca se confirmavam. Um mulato, cruzando região de montanhas no Oeste, andando sob Sol escaldante, ao matar a sede com as águas frescas e límpidas de um riacho, teve a atenção desviada por um conjunto de seixos rolados depositados sob a correnteza ante seus olhos. Com suas superfícies alisadas pela ação do tempo, destacavam-se pela cor negra forte e peso significativo.

Jogou algumas no embornal a tiracolo e seguiu viagem, chegando à cidade de Taubaté, a Nordeste da Capitania de São Vicente. Entre um gole e outro de cachaça, exibiu seus achados, descrevendo também com detalhes as referências de onde os encontrou. Estes, aos olhos de gente experiente, eram bem mais que simples pedras pesadas. Assim, logo estavam confiscadas, sendo enviadas à capital da Colônia, a cidade do Rio de Janeiro.

 

Monumentos históricos de Mariana retratam 300 anos de história do Brasil

Vista geral da cidade de Mariana, provavelmente no ano de 1895, pintura óleo sobre tela, autoria de Alberto Delpino (1864-1942), obra atualmente pertencente ao Museu Mineiro, localizado na cidade de Belo Horizonte, capital do Estado de Minas Gerais

 

Abundavam evidências da existência de ouro, mas, por mais que se procurassem, não se achavam as minas

 

Partidas em pedaços, sob o olhar do próprio governador-geral de então, Artur de Sá Menezes, revelaram um interior de ouro puro, brilhante como a luz do Sol. Expedições foram mandadas atrás do local no qual foram encontradas. Fracasso total! Sabiam haver ouro, mas ninguém encontrava o local das minas. A Coroa ficava indignada. Mas nada podia fazer, pois dependia daqueles homens para ampliar a posse sobre os territórios.

Outra evidência é de 1693. O paulista Antônio Rodrigues de Arzão chegou à Vila de Vitória, capital da Capitania do Espírito Santo, à frente pouco mais de meia centena de pessoas. Entre brancos e índios, em sua maioria esfarrapados, alguns praticamente nus, o grupo vinha do sertão do, agora, Estado de Minas Gerais. Tinham partido meses antes, da Capitania de São Vicente, atual Estado de São Paulo, em busca de escravos fugidos.

O contingente, apesar de fortemente armado, acabou atacado e derrotado por nativos lutando com arcos e flechas. Entretanto, mesmo sem trazer os cativos procurados, a aventura daquela expedição pode ser considerada bastante produtiva. Afinal, dentre os trapos que o cobriam, Antônio Rodrigues de Arzão trazia 10 gramas de ouro puro. Mas, perguntado onde havia conseguido aquela riqueza, nada revelou. Pretendia voltar lá.

Durante meses, tentou recuperar força e saúde para retornar o mais breve ao local que o transformaria em milionário. Entretanto, isso não ocorreu. Com seu organismo bastante debilitado para liderar nova incursão, desenhou um mapa e o entregou ao seu cunhado, Bartolomeu Bueno de Siqueira. Este, viciado em cartas, não fazia muito, havia perdido sua herança numa mesa de jogo. E viu ali chance de recuperar o que tinha jogado fora

 

Monumentos históricos de Mariana retratam 300 anos de história do Brasil

Área urbana da cidade de Mariana nos primórdios do século XX, início do anos 1900, com o casario colonial preservado porque a região praticamente parou no tempo, com fim do Ciclo do Ouro e a transferência da capital para a nova cidade de Belo Horizonte

 

Ouro não é esperança. A presença da riqueza é real. Mas quem achava fazia segredo de onde tinha sido

 

Sem delongas, montou bandeira e adentrou o desconhecido, no rumo indicado. Voltou com riqueza suficiente para circular nas altas rodas, e não revelou onde esteve. Aqueles viajando sob seu comando, ignorando detalhes da trilha percorrida, também não sabiam onde haviam estado. Sob o risco de ir preso, informou sobre o sucesso da empreitada: “Ouro não é mais esperança. A extensão das lavras e riqueza das minas são inegáveis.”

Adotou o mesmo procedimento de diversos outros que se enfurnaram pelas terras antes dele. Por que faziam isso? Simples: a Lei da época só dava direito sobre jazidas para a Coroa. Seus descobridores ficavam à mercê da boa vontade do rei, concedendo-lhes ou não partes do negócio. Assim, era melhor dar um tempo, esperando a legislação mudar. Isso não demorou muito para acontecer, pois a situação da Matriz era desesperadora.

Em 1694, o rei de Portugal mudou radicalmente aquela situação. A posse de qualquer mina passou a ser da quem a encontrasse. O Governo ficaria apenas com um quinto da produção — 20%. Então, praticamente ao mesmo tempo, apareceram minas em locais os mais diversos, e até bem distantes uns dos outros. Os mais importantes deles estão listados a seguir, apresentados em ordem alfabética pelos nomes dos responsáveis:

 

Monumentos históricos de Mariana retratam 300 anos de história do Brasil

Vista do Centro Histórico da cidade de Mariana, em 1903, destacando-se as diversas igrejas em meio às casas baixas, num momento em que a estagnação econômica local iria ser substituída pelo crescimento proporcionado pela extração do minério de ferro

 

Pico do Itacolomi: referência dos locais em que havia ouro. Era chegar, achar um rio e começar a ficar rico

 

Este último nos interessa em particular, pois acabou sendo o responsável pela fundação da cidade de Mariana. E tudo foi iniciado de forma prosaica, quando, em 16 de julho de 1696, chegou à região com seu grupo, acampando às margens do já batizado Ribeirão de Nossa Senhora do Carmo. Sabia estar no lugar correto pois no topo de uma colina divisava o elemento natural descrito por aquele tal mulato, isso, há muitos anos atrás.

No alto do morro, um enorme marco natural sobressaía da terra, encurvando-se para o lado. Era o agora conhecido Pico do Itacolomi. Na língua dos nativos, algo como “pedra nascida do ventre da terra”. Já havia outros grupos garimpando nas proximidades. Mas ali estava sendo dado o passo inicial do surgimento de um arraial que, logo, assumiria função bem estratégica no jogo de poder determinado pelo ouro: a cidade de Mariana.

Passados 300 anos desde aquele momento, a melhor palavra para definir, atualmente, a cidade de Mariana, situada no Sudeste do Estado de Minas Gerais, é “primeira” — ou “primeiro” — de alguma coisa. O rastro de pioneirismo que a acompanha ao longo dos três séculos é raro no Brasil — até mesmo no mundo. Começa por ter sido fundada dois anos antes de Ouro Preto. Daí em diante, outros fatos merecem ser mencionados, como:

  • Primeira a tornar-se vila;
  • Primeira Câmara Municipal;
  • Primeira a ser elevada à categoria de cidade;
  • Primeiro aglomerado urbano da Colônia a ter traçado de ruas planejado;
  • Primeiro bispado;
  • Primeira agência de Correio da região.

 

Monumentos históricos de Mariana retratam 300 anos de história do Brasil

Estação Ferroviária da cidade de Mariana, em 1922, quando da visita do presidente da República, Epitácio Pessoa, tendo viajado a partir da capital do País, a cidade do Rio de Janeiro, usando os trens que serviam ao sistema da Estrada de Ferro Leopoldina

 

Cidade teve diversos nomes. Denominação que ficou surgiu em homenagem à esposa do rei: Dona Maria Ana

 

Tudo isso começou porque o local passou a ser um dos principais fornecedores de ouro para Portugal. Terminada a Guerra dos Emboabas, entre 1707 a 1709, tornou-se a então a primeira vila da recém-criada Capitania de São Paulo e Minas de Ouro. Em 8 de abril de 1711, o governador Antônio de Albuquerque Coelho de Carvalho elevou o Arraial do Ribeirão do Carmo à condição de Vila de Nossa Senhora do Ribeirão do Carmo.

A decisão foi confirmada por Carta Régia de 14 de abril de 1712, mas alterando o nome para Vila Real de Nossa Senhora. Esta denominação vigorou até 23 de abril de 1745. Foi quando recebeu a denominação de Mariana, numa homenagem do rei Dom João V, de Portugal, à sua esposa, Dona Maria Ana, da Áustria. Este nome sobreviveu ao término do Ciclo do Ouro, Independência do Brasil e Proclamação da República.

Com a população de toda a região crescendo rapidamente, era preciso estabelecer um centro religioso. Para isso, foi escolhida a cidade de Mariana. Ela passou a ser sede do primeiro bispado mineiro. Para comandá-lo, escolheu-se Dom Frei Manoel da Cruz. Ele deixou a cidade de São Luís, no Maranhão, viajando por terra, uma aventura de um ano e dois meses, considerada feito bastante representativo no período do Brasil Colônia.

Se era comum as cidades surgirem de modo desorganizado, com as casas ocupando os terrenos de modo desordenado, o núcleo central de Mariana fugiu logo a esta regra. Foi reconstruído com projeto urbanístico avançado para a época, elaborado pelo engenheiro José Fernandes Pinto Alpoim. Assim, ruas em linhas retas e praças retangulares são características da primeira cidade planejada, tanto de Minas Gerais quanto do Brasil.

 

Monumentos históricos de Mariana retratam 300 anos de história do Brasil

Antiga Câmara Municipal da cidade de Mariana, edifício que abrigava a administração pública na parte superior e a cadeia, no pavimento térreo, tendo à frente o pelourinho, no qual eram algemados os condenados à humilhação pública e escravos recapturados

Berço de pessoas decisivas e importantes na história do País, além de grande pioneirismo em diversas áreas

 

Ao mesmo tempo em que se expandia com mais e mais casarios, hoje testemunhas da história do País, Mariana gerava personagens que se tornaram significativos na cultura brasileira. Um dos mais importantes, Cláudio Manuel da Costa, poeta da Inconfidência Mineira. Outro é o pintor Manuel da Costa Ataíde, decorador do interior da maioria das igrejas ainda lá existentes. E, ainda, Frei Santa Rita Durão, autor do poema “Caramuru”.

A primeira agência de Correios da Capitania das Minas Gerais foi lá instalada em 1730. O sistema, conhecido como Correio Ambulante, permitia a comunicação com as cidades do Rio de Janeiro, capital da Colônia, e de São Paulo, capital da Capitania de São Vicente. As correspondências, passadas de um ponto para outro, em cada um deles recebia um carimbo garantindo a responsabilidade do transporte em determinado trecho.

Com o declínio da produção de ouro lá pelo final do século XVIII, anos 1700, Mariana e seu entorno na Região das Minas Gerais entram num período de ostracismo. E é esse quase abandono o maior fator de preservação do acervo de construções coloniais em seu Centro Histórico. Este enorme conjunto casas, construções diversas e igrejas é agora fundamental para o crescimento da presença de visitantes de todo o Brasil e do exterior.

Em 1945, a cidade de Mariana é alçada à condição de Monumento Nacional, pelos seus significativos patrimônios cultural, histórico e religioso. E também pela sempre ativa participação na vida cívica e política do País ao longo dos seus três séculos, como na Inconfidência Mineira quanto na Proclamação da Independência, período do Império e nesta fase republicana, com contribuições decisivas para a nacionalidade brasileira.

 

Monumentos históricos de Mariana retratam 300 anos de história do Brasil

Vista da Praça Minas Gerais, na cidade de Mariana, espaço que reúne três edificações do período do Ciclo do Ouro naquela região: à esquerda, Igreja de Nossa Senhora do Carmo; abaixo, Igreja de São Francisco de Assis; acima, antiga Câmara Municipal

Extração do minério de ferro é maior geradora de recursos. Mas o turismo vem crescendo ano a ano

 

Com altitude média de 700 metros, seu ponto mais alto é o Pico do Itacolomi, com 1.770 metros — atrativo natural dividido com o Município de Ouro Preto, um dos sete com os quais faz limites. Os outros são os Municípios de Acaiaca, Alvinópolis, Barra Longa, Catas Altas, Diogo de Vasconcelos e Piranga. Está distante 100 quilômetros da capital, a cidade de Belo Horizonte, com ligações totalmente em estradas asfaltadas.

Agricultura e pecuária têm baixa representatividade na criação de postos de trabalho e geração de renda, assim como na receita pública. O turismo, crescendo ano a ano, tem boa representatividade em termos de empregos, mas pouca participação em termos de contribuição de impostos. O Município de Mariana, dependente da extração do minério de ferro, integra o que é chamado de Quadrilátero Ferrífero do Estado de Minas Gerais.

Esta é uma região situada no Centro-Sudeste do Estado, com, aproximadamente, 7 mil quilômetros quadrados de área. Além de Mariana, abrange Municípios de Congonhas, Itabira, Itabirito, Itaúna, João Monlevade, Ouro Preto, Rio Piracicaba, Sabará, Santa Bárbara e outros. Responsável por 60% de toda a produção nacional de minério de ferro, abastece todas as siderúrgicas brasileiras e manda grande parte para o exterior.

O minério de ferro produzido no Município de Mariana é levado para exportação por dois sistemas. O mais antigo, a Estrada de Ferro Vitória a Minas, até os terminais do Porto de Tubarão, no Município de Vitória, capital do Espírito Santo. O mais novo, por tubos, o mineroduto. Com cerca de 400 quilômetros, atravessa 25 Municípios, ligando o Município de Mariana ao Município de Anchieta, no Sul do Estado do Espírito Santo.

 

Monumentos históricos de Mariana retratam 300 anos de história do Brasil

A antiga Casa do Bispo, atual Museu da Música, é uma das edificações que remontam o período da reforma da área urbana da cidade de Mariana, com o local no qual seria construída marcado na planta feita pelo engenheiro José Fernandes Pinto de Alpoim

 


 

Matéria produzida a partir da participação na edição 2015 do Festival de Turismo de Ouro Preto, realizada de 15 a 17 de outubro, no Município de Ouro Preto.

 

Estive na cidade de Mariana mais ou menos um mês antes da tragédia que abalou o Município, atingiu o Vale do Rio Doce e alcançou o litoral do Estado do Espírito Santo. Este post estava pronto para ser publicado desde aqueles dias. Segurei por mais dois meses, para não competir com os fatos lamentáveis ocupando o noticiário. Espero que este meu pequeno trabalho contribua para reverter a agenda negativa, porque tanto a região quanto o povo que lá vivem merecem dias melhores.