Cinco minas escavadas na rocha recebem visitantes na cidade de Ouro Preto. O pouco que se vê dentro delas é boa amostra da vida sofrida dos escravos, penando em túneis escuros e quentes. Em 150 anos de exploração, retiraram US$ 23 bilhões das entranhas das montanhas.

 

Sonho de enriquecer rapidamente levou milhares de aventureiros à busca do ouro no interior da Colônia

 

A possibilidade de enriquecer rapidamente, extraindo fortunas dos fundos dos cursos d’água existentes no interior da Capitania de São Paulo e Minas de Ouro — mais tarde, apenas Capitania das Minas Gerais — logo atraiu levas e mais levas de aventureiros. A Coroa Portuguesa, é claro!, no sentido de garantir seus 20% de impostos, implantou os seus sistemas de controle sobre a produção. Mesmo assim, o contrabando era grande.

E com a maioria dos registros perdidos ao longo do tempo, ninguém pode determinar ao certo quanto de ouro foi retirado da região da Vila Rica ao longo dos séculos XVIII, anos 1700, do início da extração, e XIX, anos 1800, com o esgotamento dos veios. Sabe-se que, a partir da descoberta do metal, a quantidade cresceu por um século, sem parar. E levou meio século decaindo, até praticamente desaparecer por volta de 1850.

Uma referência informa que, em 1750, foram enviados 1.170 quilos daquela riqueza para Portugal, recolhidos como pagamento de imposto. Como representava um quinto do total, naquele ano foram extraídos 5.850 quilos, estes contabilizados legalmente. Uma quantidade significativa era contrabandeada de diferentes formas, principalmente escondida em esculturas de santos, feitas em madeira, os tais “santinhos de pau oco”.

 

Minas de ouro abertas à visitação são novas atrações da cidade de Ouro Preto

Mapa das Capitanias Hereditárias, sistema de colonização implantado no território da colônia brasileira, vigente durante a maior parte do período em que durou o Ciclo do Ouro, entre os anos de 1700 e 1850

 

Minas de ouro abertas à visitação são novas atrações da cidade de Ouro Preto

Áreas nas quais foram descobertas minas de ouro no território brasileiro, tão logo a Coroa Portuguesa modificou a legislação, dando a posse das mesmas aos seus descobridores, e ficando apenas com o imposto de 20% sobre o total produzido

 

Valor estimado da produção do metal, nos 150 anos de duração do Ciclo do Ouro, chega a US$ 23 bilhões

 

Num período de 150 anos, da descoberta ao esgotamento, estima-se em 535 toneladas a produção total. Ou 535.000 quilos. A preços atuais, esta produção valeria por volta de US$ 23 bilhões de dólares. Descontando-se US$ 6 bilhões enviados à Europa, ficaram no País US$ 17 bilhões, grande parte deles aplicados no enorme conjunto de edificações — casas, chafarizes, igrejas, espaços públicos etc. — vistas pela cidade de Ouro Preto.

Uma riqueza oriunda, primeiro, do fundos dos rios; depois, das encostas dos morros; e, finalmente, e durante a maior parte do tempo, do fundo das montanhas. Pode-se dizer, sem medo de errar: o que existe agora sobre a superfície surgiu dali mesmo, tirada de dentro do solo pelo trabalho de milhares de escravos negros. E também foram estes os responsáveis por erguer os milhares de prédios agora orgulho de todo a nossa Nação.

Estima-se que, sob toda a área urbana de Ouro Preto, existam por volta de 2.500 minas escavadas rocha a dentro. Conforme foram sendo abandonadas, a ação da natureza e a intervenção humana acabaram por escondê-las dos olhos humanos. Daquele total, cerca de 400 estão localizadas. E apenas cinco destas estão preparadas para serem visitadas, um tipo de programação que tem atraído cada vez mais os turistas visitando a cidade.

 

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O metal encontrado na região do que é agora o Município de Ouro Preto era levado à Casa de Fundição para ser transformado em barras como estas da imagem. A de cima traz gravado o ano de 1800; a segunda, abaixo, 1796; a terceira, 1810; e a última, 1800

 

Minas de ouro em Ouro Preto exibem uma realidade de túneis estreitos, calor escaldante, poeira sufocante

 

Adentrar os seus túneis estreitos, agora iluminados, dá uma ideia da vida dos seres enfurnados centenas de metros pedra a dentro, suando pelo calor, respirando poeira, trabalhando sob condições inóspitas. E serve para valorizar o trabalho de gente há muito tempo esquecida, responsáveis pelo patrimônio hoje representado pela Mina de Santa Rita, Mina do Chico Rei, Mina do Jejé, Mina du Veloso e Mina Felipe dos Santos.

A seguir, um pequeno resumo de cada uma delas, relacionadas na ordem alfabética dos nomes como são identificadas:

 

Mina de Santa Rita

 

A Mina de Santa Rita, das mais antigas da Capitania das Minas Gerais, está localizada no Sítio Arqueológico de Padre Faria. Ou seja: no espaço que deu origem à cidade de Ouro Preto. Oferece 115 metros de extensão de túnel para visitação guiada e segura. Daí em diante, há um grande labirinto, do qual ainda não se encontrou o fim. Sua escavação foi realizada por negros vindos do Sul da África, especialmente da região do Congo.

 

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Rua Santa Rita 171 — Padre Faria — Ouro Preto — MG — DDD 31 — Móvel 8641-2294 — Fixo 3552-3363

 

Mina do Chico Rei

 

Lendas da história oral contam ter sido essa a única mina de propriedade de um negro, nos tempos coloniais. Tratava-se justamente de Chico Rei, um escravo que conquistou sua alforria e tornou-se muito rico. A área total a que tinha direito para lavra somava oito quilômetros quadrados na superfície do terreno. No subterrâneo, ela foi explorada em todas as direções, através de 175 galerias, escavadas em três níveis de profundidade.

 

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Rua Dom Silvério 108 — Antônio Dias — Ouro Preto — MG

 

Mina do Jejé

 

Não há uma data precisa para o início das escavações que levaram à formação da Mina do Jejé. Indícios arqueológicos apontam seu surgimento nos meados do Século XVIII, ou seja próximo a 1750. Sua estrutura interna se destaca pela forma como a escavação foi executada. As galerias dos túneis apresentam traços de serviço mais bem elaborado, deixando antever certos conhecimentos de engenharia, o que não era comum na época.

 

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Rua Chico Rei 371 — Alto da Cruz — Ouro Preto — MG — DDD 31 — Fixo 3552-1558

 

Mina du Veloso

 

O coronel José Veloso do Carmo foi dos últimos grandes mineradores da antiga Vila Rica. Começou a explorar as lavras por volta de 1800, chegando a ter 88 escravos em seus túneis, conforme censo realizado em 1804. A galeria principal, com 220 metros de extensão, é interrompida por dois poços de água cristalina. No total, são passíveis de serem visitados em torno de 400 metros. O local abriga hoje o bairro de São Cristóvão.

 

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Imagem aérea da área urbana da cidade de Ouro Preto, em 1966. Na elipse, a localização da Mina du Veloso. No quadrado, os mundéus, espécie de represas que seguravam os sedimentos colocados montanha abaixo com o uso de água. Esta era canalizada para o local através de aquedutos acompanhando as curvas de nível dos morros, conforme podem ser vistos nas linhas à esquerda da imagem

 

Rua Platina 34 — São Cristóvão — Ouro Preto — MG — DDD 31 — Móvel 8745-3494 — Fixo 3551-0792
www.minaduveloso.blogspot.com

 

Mina Felipe dos Santos

 

A Mina Felipe dos Santos não possui documentos preciso sobre a data de início da sua escavação, nem de quando a exploração foi encerrada. E se diferencia das demais por apresentar uma pequena queda d’água em meio aos túneis hoje abertos para visitação. Ao cruzar as galerias, ainda é possível observar em suas paredes resquícios dos veios seguidos pelos escravos ao longo de anos e anos de trabalho sem trégua e sofrimento.

 

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Rua 13 de Maio 637 — Alto da Cruz — Ouro Preto — MG — DDD 31 — Móvel 8679-6467

 


 

 

Ciclo do Ouro no Brasil: uma história de 150 anos de recursos jogados fora em consumo e ostentação

 

Portugal desperdiça duas oportunidades de desenvolvimento: domínio da navegação e produção e comércio do açúcar; e vai jogar no lixo uma terceira, o Ciclo de Ouro no Brasil

 

No final do século XVII, anos 1600, Portugal amargava o resultado de ter desperdiçado sua segunda oportunidade de transformar-se numa nação próspera, economia dinâmica, sociedade desenvolvida. A primeira foi não ter dado continuidade aos investimentos em cultura, educação, pesquisa e tecnologia patrocinados pelo infante Dom Henrique, que passou à história com o título de “O Navegador”, em meados do século XV, anos 1400.

Uma iniciativa isolada, praticamente individual, mas capaz de ganhos de eficiência e produtividade significativos, tornando um pequeno e inexpressivo país numa potência naval, praticamente sem rival na Europa. Tão forte era esse processo que sobreviveu muito tempo após a morte do seu idealizador, dentro de uma Corte perdulária, com um sistema de Governo cartorial, sem qualquer incentivo à liberdade do empreendedorismo.

O momento seguinte vai de 1550 a 1650, com as riquezas geradas pela cultura da cana-de-açúcar nas colônias ultramarinas: Ilha da Madeira, Arquipélago dos Açores, outros territórios na África e, notadamente, no Brasil. Os recursos daí advindos, em vez de aplicados em infraestrutura ou industrialização — como vinha fazendo a Inglaterra, por exemplo —, foram dissipados cobrindo gastos de consumo e despesas de ostentação.

 

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O infante Dom Henriques, no destaque e homenageado com estátuas tanto na Europa quanto na África, transformou Portugal no mais avançado centro de conhecimentos sobre navegação do mundo na metade do século XV, anos 1400

 

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Um dos nomes mais importantes da milenar história de Portugal, o infante dom Henriques foi homenageado em moedas especiais de 20 escudos, padrão monetário agora substituído pelo Euro

 

Perda do mercado de açúcar na Europa: holandeses espulsos do Nordeste brasileiro passam a controlar produção e comércio; e fazem isso com empreendedorismo, investimentos e tecnologia

 

Os holandeses, depois da fracassada opção de tomar o Nordeste brasileiro do domínio português, foram cultivar cana-de-açúcar nas ilhas do Mar do Caribe. Investimentos adequados, técnicas mais modernas e incentivo ao empreendedorismo individual logo inundaram o mercado europeu com produto de melhor qualidade a preços bem mais vantajosos. Os portugueses perdiam a primazia naquele setor, para nunca mais retornar.

Portugal logo foi ultrapassada economicamente por todos os seus vizinhos europeus — até mesmo pela Espanha, com Governo e sociedade bastante similares, mas vivendo principalmente do ouro e prata amealhados pelo Novo Mundo. E essa situação intrigava Lisboa: como num território tão grande quanto o do Brasil não se encontravam fontes riquezas similares? Cadê as minas de ouro? Cadê as de prata? E as de pedras preciosas?

O rei de Portugal à época, Dom Pedro II, enviava cartas e mais cartas aos seus colonos no Brasil — notadamente os paulistas, estes já tendo demonstrado serem corajosos e destemidos o suficiente para deixar casas, famílias e até fortunas, arriscando a própria vida para adentrar pelo desconhecido. O monarca praticamente rogava: “Deixem o litoral e partam em busca de descobrir riquezas no interior desta vastíssima Colônia!”

 

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Um típico engenho de produção de açúcar no Nordeste brasileiro durante o período de dominação pelos holandeses

 

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O conde Maurício de Nassau comandava a ocupação holandesa do Nordeste brasileiro, período no qual a força dos ventos era aproveitada através do uso das moinhos típicos daquela nação europeia

 

Mulato encontra seixos rolados no fundo de um rio, joga alguns num embornal e viaja carregando um fortuna sem saber, pois aqueles simples pedras tinham seu interior em ouro puro

 

Os indícios eram significativos, mas as localizações nunca se confirmavam. Um mulato, cruzando região de montanhas no Oeste, andando sob Sol escaldante, ao matar a sede com as águas frescas e límpidas de um riacho, teve a atenção desviada por um conjunto de seixos rolados depositados sob a correnteza ante seus olhos. Com suas superfícies alisadas pela ação do tempo, destacavam-se pela cor negra forte e peso significativo.

Jogou algumas no embornal a tiracolo e seguiu viagem, chegando à cidade de Taubaté, a Nordeste da Capitania de São Vicente. Entre um gole e outro de cachaça, exibiu seus achados, descrevendo também com detalhes as referências de onde os encontrou. Estes, aos olhos de gente experiente, eram bem mais que simples pedras pesadas. Assim, logo estavam confiscadas, sendo enviadas à capital da Colônia, a cidade do Rio de Janeiro.

Partidas em pedaços, sob o olhar do próprio governador-geral de então, Artur de Sá Menezes, revelaram um interior de ouro puro, brilhante como a luz do Sol. Expedições foram mandadas atrás do local no qual foram encontradas. Fracasso total! Sabiam haver ouro, mas ninguém encontrava o local das minas. A Coroa ficava indignada. Mas nada podia fazer, pois dependia daqueles homens para ampliar a posse sobre os territórios.

 

Bandeirante chega ao litoral com 10 gramas de ouro, mas se recusa a revelar o local onde encontrou aquela riqueza: ele era mais um dos que escondiam onde ficavam as minas

 

Outra evidência é de 1693. O paulista Antônio Rodrigues de Arzão chegou à Vila de Vitória, capital da Capitania do Espírito Santo, à frente pouco mais de meia centena de pessoas. Entre brancos e índios, em sua maioria esfarrapados, alguns praticamente nus, o grupo vinha do sertão do, agora, Estado de Minas Gerais. Tinham partido meses antes, da Capitania de São Vicente, atual Estado de São Paulo, em busca de escravos fugidos.

O contingente, apesar de fortemente armado, acabou atacado e derrotado por nativos lutando com arcos e flechas. Entretanto, mesmo sem trazer os cativos procurados, a aventura daquela expedição pode ser considerada bastante produtiva. Afinal, dentre os trapos que o cobriam, Antônio Rodrigues de Arzão trazia 10 gramas de ouro puro. Mas, perguntado onde havia conseguido aquela riqueza, nada revelou. Pretendia voltar lá.

Durante meses, tentou recuperar força e saúde para retornar o mais breve ao local que o transformaria em milionário. Entretanto, isso não ocorreu. Com seu organismo bastante debilitado para liderar nova incursão, desenhou um mapa e o entregou ao seu cunhado, Bartolomeu Bueno de Siqueira. Este, viciado em cartas, não fazia muito, havia perdido sua herança numa mesa de jogo. E viu ali chance de recuperar o que tinha jogado fora

 

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As evidências mostram que os bandeirantes já tinham encontrado ouro pelo interior do Brasil, só não revelavam onde porque as minas seriam da Coroa Portuguesa, com a possibilidade deles ficarem sem nada

 

Ouro é realidade, mas ninguém revela onde está: aguardava-se uma mudança da legislação sobre a propriedade das jazidas; logo que isso acontece, aparecem minas em diversos pontos do País

 

Sem delongas, montou bandeira e adentrou o desconhecido, no rumo indicado. Voltou com riqueza suficiente para circular nas altas rodas, e não revelou onde esteve. Aqueles viajando sob seu comando, ignorando detalhes da trilha percorrida, também não sabiam onde haviam estado. Sob o risco de ir preso, informou sobre o sucesso da empreitada: “Ouro não é mais esperança. A extensão das lavras e riqueza das minas são inegáveis.”

Adotou o mesmo procedimento de diversos outros que se enfurnaram pelas terras antes dele. Por que faziam isso? Simples: a Lei da época só dava direito sobre jazidas para a Coroa. Seus descobridores ficavam à mercê da boa vontade do rei, concedendo-lhes ou não partes do negócio. Assim, era melhor dar um tempo, esperando a legislação mudar. Isso não demorou muito para acontecer, pois a situação da Matriz era desesperadora.

Em 1694, o rei de Portugal mudou radicalmente aquela situação. A posse de qualquer mina passou a ser da quem a encontrasse. O Governo ficaria apenas com um quinto da produção — 20%. Então, praticamente ao mesmo tempo, apareceram minas em locais os mais diversos, mas, em sua maioria onde agora é o Estado de Minas Gerais. As mais importantes estão listadas a seguir, na ordem alfabética dos nomes dos descobridores:

 

 

Surge a vila que dará origem à cidade de Ouro Preto, centro gerador de uma grande riqueza à base da força dos escravos, os grandes construtores do que agora é Patrimônio da Humanidade

 

O que nos interessa nesse momento é o primeiro. No início da noite de 24 de junho de 1698, Dia de São João na tradição do catolicismo, uma expedição de bandeirantes vinda da Capitania de São Vicente — atual Estado de São Paulo —, varando pelo interior da Colônia Portuguesa à procura de ouro e pedras preciosas, acampou às margens de um córrego desconhecido. O grupo viajava sob o comando de Antônio Dias de Oliveira.

Faziam parte também daquela expedição um capelão, o padre João de Faria Fialho, e Tomás Lopes de Camargo, ostentando uma patente de coronel — além de um irmão deste, cuja identidade perdeu-se ao longo dos anos. Todos sabiam o que buscavam, mas, naquele momento, desconheciam onde estavam. Haviam viajado dias e dias para o Norte, mas a intensidade da vegetação e ausência de luz impediam ter mais referências.

Ao acordarem, em meio à névoa do amanhecer, viram desenhar-se acima deles, pouco a pouco, o alvo procurado: uma montanha exibindo na sua parte mais alta um rochedo — o Pico do Itacolomi: “filho da montanha grande”, ou “pedra nascida da montanha”, na língua tupi. Era uma das referências passadas pelo mulato cujos seixos rolados foram confiscados na cidade de Taubaté. Mais uma mina de ouro havia sido “encontrada”.

Estava dado o ponto de partida para o terceiro período de pujança econômica de Portugal. Se o primeiro havia durante apenas 50 anos, o segundo prolongou-se por 100 e este duraria um século e meio. Assim como os dois primeiros, também não seria revertido em progresso econômico significativo. Nada de indústrias, importando-se tudo. Nada de infraestrutura, educação, nenhum crescimento significativo de produtividade.

Tanto é assim que, mesmo com a produção de ouro a todo o vapor na região das Minas Gerais, em 1808, para fugir das tropas de Napoleão, a Coroa Portuguesa mudou-se para o Brasil a bordo de navios mercantes ingleses, escoltados pela Marinha de Guerra daquela nação. Chegando aqui, dom João VI abriu o Brasil para o comércio mundial, o que permitiu à Inglaterra fazer seus primeiros investimentos em solo brasileiro.

Um dos primeiros deles foi a Mina da Passagem, localizada no Município de Mariana, vizinho ao Município de Ouro Preto. É a primeira escavada em rocha no País na qual foi utilizada tecnologia avançada, principalmente mecanização. E aí começaram as lendas sobre o empreendimento, que perduram até os dias atuais: ela foi concedida à Inglaterra como pagamento pelo transporte da família real de Lisboa ao Rio de Janeiro.

Esta desculpa é do nível de outra, repetida pelos guias de turismo da região de Ouro Preto: o Ciclo de Ouro no Brasil bancou a Revolução Industrial na Inglaterra. Ela se insere nessa nossa tradição de não nos responsabilizarmos por nossos fracassos, passando a condenar o sucesso dos outros. Nossos comunistas de bar e restaurante, esquerdistas de faculdade e universidade, socialistas de caviar e vinho são mestres nisso.

 


 

Matéria produzida a partir da participação na edição 2015 do Festival de Turismo de Ouro Preto, realizada de 15 a 17 de outubro, no Município de Ouro Preto.