Letão chegou ao Pantanal em 1914, com 24 anos. Aprendeu a caçar como nativo e matou o primeiro animal em 1925. Alcançando fama mundial, passou a trazer estrangeiros para safáris no Brasil. Escreveu quatro livros, atuou em filmes e faleceu aos 80 anos, em 1970.

 

Maior caçador de onças-pintadas do Pantanal eliminou 300 animais em 45 anos

 

Sasha Siemel: imigrante da Letônia

 

Maior caçador de onças-pintadas do Pantanal eliminou 300 animais em 45 anos

Sasha Siemel aprendeu matar onças-pintadas usando zagaia, lança com mais ou menos dois metros de comprimento e pontas afiadas. Aí está ele com a zagaia e uma das suas vítimas. Liquidou a primeira em 1925 e não parou mais. Em 45 anos como caçador, foram mais de 300

 

Maior caçador de onças-pintadas do Pantanal eliminou 300 animais em 45 anos

Sasha Siemel deixou seu emprego numa empresa de mineração de diamantes e transformou-se em caçador profissional, primeiro trabalhando para os fazendeiros. Era contratado para eliminar as onças-pintadas que atacavam os rebanhos de gado criados soltos no Pantanal

 

Maior caçador de onças-pintadas do Pantanal eliminou 300 animais em 45 anos

Aí está Sasha Siemel à frente do resultado de uma de suas expedições de caça. Talvez tenha acabado com essas onças-pintadas sozinho, utilizando a zagaia, arco e flecha e armas de repetição. Isso mostra que o total de mais de 300 não é mentira de caçador

 

Maior caçador de onças-pintadas do Pantanal eliminou 300 animais em 45 anos

Barco utilizado por Sasha Siemel para navegar pelos rios do Pantanal nos safáris de caça à onça-pintada organizados por ele para turistas vindos do exterior. Enquanto viajavam vagarosamente, iam aquecendo a pontaria atirando em tudo que aparecesse pela frente

 

Maior caçador de onças-pintadas do Pantanal eliminou 300 animais em 45 anos

Sasha Siemel caçava onças-pintadas e tudo o mais que aparecesse à sua frente. Na imagem à esquerda, aquela “pequena” cobra pendurada a um galho de árvore é um bom exemplo disso. À direita, mais uma vítima inocente dele, com pelo menos dois metros de comprimento

 

Maior caçador de onças-pintadas do Pantanal eliminou 300 animais em 45 anos

Na foto da esquerda, e à esquerda na imagem, um dos participantes dos safáris organizados por Sasha Siemel; no chão, o resultado da caçada: à direita, ele mesmo, sobre um cavalo e portando uma zagaia, com pose de herói do velho Oeste dos Estados Unidos da América

 

Maior caçador de onças-pintadas do Pantanal eliminou 300 animais em 45 anos

Esta é, talvez, uma das últimas imagens de Sasha Siemel caçando no Pantanal. Ela está datada de 1967, mesmo ano em que a caça foi proibida no Brasil. Ele retornou ao País depois, mas apenas para guiar turistas e um grupo de geólogos vindos conhecer o Centro-Oeste brasileiro

 

Maior caçador de onças-pintadas do Pantanal eliminou 300 animais em 45 anos

Sasha Siemel foi exímio em administrar imagem e fama de caçador de onças-pintadas, gerando dinheiro com isso. Além de organizar safáris, fazer palestras, escrever livros e participar de filmes e séries de TV, fez anúncios, como este para o uísque Imperial

 

Sasha Siemel: chega ao Brasil em 1914

 

Aleksandrs Ziemelis nasceu em 25 de janeiro de 1890, na cidade de Riga, a capital da Letônia, país situado no Norte da Europa e, na época, sob domínio da Rússia imperial. E morreu em 14 de fevereiro de 1970, no Condado de Montgomery, situado no Estado da Pensilvânia, nos Estados Unidos da América. Durante seus longos 80 anos de vida, foi de tudo um pouco: ator, aventureiro, caçador, escritor, fotógrafo, guia de safáris, palestrante…

Com apenas 17 anos, em 1907, emigrou para os Estados Unidos da América, lá ficando até 1909. Seguiu para a Argentina, tornando-se empregado de uma gráfica na cidade de Buenos Aires, capital deste país sul-americano. Em 1914, com 24 anos de idade, veio para o Brasil, indo morar na cidade de Corumbá, situada no antigo Estado do Mato Grosso. Empregou-se como mecânico de mineradora de diamantes, sendo também responsável pelo armamento.

Assim, conheceu a região do Pantanal, encantando-se com a natureza local. Tornando-se amigo de nativos, aprendeu com eles a caçar usando a zagaia, lança de mais ou menos dois metros de comprimento e com suas duas pontas bem afiadas. Segundo consta, matou sua primeira onça-pintada portando este instrumento, em 1925. Tinha 35 anos. Não parou mais. Usava também arco e flecha e modernas armas de repetição para tirar as vidas dos felinos.

Matar com zagaia exige muita coragem. Ela é arma de mão e impõe proximidade extrema entre os contendores. O caçador se apresenta no ambiente da caça, começa a persegui-la, irritando-a e expondo-se completamente. O objetivo é fazer a fera avançar sobre ele. Nesse momento, ela joga-se de costas ao chão e segura firme a lança, inclinada, em direção ao bote. O animal, sem perceber a armadilha, lança-se de peito sobre o extremo pontiagudo.

 

Sasha Siemel: coragem, habilidade, destemor

 

Logo, a coragem, o destemor e as habilidades daquele caçador implacável, louro e de olhos azuis, falando com sotaque, tornaram-se conhecidas em todo o Pantanal e até mesmo fora dele. E o transformaram em um profissional. Deixou as atividades ligadas à mineração e passou a trabalhar para os fazendeiros, com a expressa função de matar onças-pintadas para proteger rebanhos de gado. A pecuária começava a avançar para todo o Oeste brasileiro.

A precariedade dos meios de comunicação da época não impediu a popularização mundial da história do europeu matador de “animais selvagens” nas impenetráveis selvas brasileiras. Sasha Siemel estava com 29 anos de idade quando, em 1929, como que do nada, apareceu em Corumbá o norte-americano Julian Duguid. Queria conhecer o Pantanal e precisava de um guia experiente para acompanhá-lo na aventura, inclusive para protegê-lo dos perigos.

Ele aceitou a incumbência e embrenharam-se pelos rios e terras alagadas durante muitas semanas. É bem provável que, durante essa longa excursão, Sasha Siemel tenha dado demonstrações das suas capacidades de rastreador e matador de onças-pintadas. Percebeu também que aquela atividade, acompanhar turistas ricos em grandes safáris no centro do Brasil, poderia ser desenvolvida sem deixar de atender os grandes proprietários de gado.

 

Sasha Siemel: fama projetada no exterior

 

Ao retornar ao chamado “mundo civilizado”, Julian Duguid usou as suas anotações para compor um livro de sucesso: “O inferno verde”. Naquela obra, Sasha Siemel, apelidado de “Tiger Man”, tem a fama multiplicada ao extremo. Este, vendo ali uma oportunidade para ganhar muito dinheiro guiando outros grupos em viagens semelhantes, incentivou o autor a dar palestras sobre o tema no Canadá, Estados Unidos da América e outros países europeus.

Sempre que possível, Sasha Siemel juntava-se ao escritor, encantando os ouvintes com a sua própria descrição daquelas aventuras. Isso mostra que ele tinha uma situação financeira bem confortável, porque viajar de Corumbá até o Hemisfério Norte, naquela época, não era para qualquer um. O transporte aéreo, feito por hidroaviões, apesar de precário, custava os olhos da cara. E, mesmo optando por navio, além de demorado, também não ficava barato.

O jovem Sasha Siemel impressionava os ouvintes. Para eles, era interessante conhecer uma pessoa do frio europeu tão bem adaptada ao excessivo calor do interior do Brasil. Como, no geral, os assistentes eram pessoas ricas, ficava fácil conseguir novos clientes para os safáris pelo Pantanal. Sem dúvida, ele pode ser considerado a primeira pessoa a oferecer uma opção de turismo especializado em nosso País: predatório, sangrento, mas lucrativo.

 

Sasha Siemel: safáris para estrangeiros

 

Também não estava limitado ao morticínio apenas da onça-pintada. Nos percursos de barco até os pontos das caçadas, como aquecimento, a partir dos deques das embarcações, e entre um gole de uísque e outro, iam dando tiros em tudo que avistavam às margens dos cursos d’água: anta, capivara, carcará, cervo-do-pantanal, curicaca, colhereiro, ema, garça-branca, gavião, jaçanã, jacaré, lobo-guará, papagaio, seriema, socó, tamanduá, tucano, tuiuiú

Em 1937, aos 47 anos, em conferência na cidade de Filadélfia, no Estado da Pensilvânia, no litoral Leste dos Estados Unidos da América, Sasha Siemel conheceu Edith Bray. Jovem fotógrafa, ela juntou-se a ele no Pantanal e, três anos depois, em 1940, casaram-se. Viviam próximos à cidade de Corumbá, hoje Município do Estado do Mato Grosso do Sul, numa casa flutuante, ancorada às margens do Rio Miranda, um dos afluentes do Rio Paraguai.

Ao mesmo tempo em que lá nasciam seus filhos, recebiam e hospedavam os endinheirados chegando da América do Norte e da Europa, depois de longas viagens do Norte para o Sul. Mesmo durante a Segunda Guerra Mundial, de 1939 a 1945, o movimento se manteve. Se o transporte aéreo ficava impossível, cruzavam o Oceano Atlântico ou o Oceano Pacífico, até Buenos Aires e subiam pelo Rio da Prata, Rio Paraná e Rio Paraguai até alcançar Corumbá.

 

Sasha Siemel: fuga do Brasil em 1947

 

Todos investiam altas somas de recursos na busca por vivenciar aquelas emoções descritas, primeiro, por Julian Duguid, e, depois, pelo próprio Sasha Siemel, em seus próprios livros e nas suas muitas palestras. Isto se manteve por uma década, até 1947, quando, não se sabe por qual razão, o casal resolveu ir embora do Brasil. Desfizeram-se de suas propriedades, despacharam a mudança e partiram deixando amigos e conhecidos surpresos com a decisão.

Afinal, se Sasha Siemel era famoso lá fora, esta notoriedade havia sido construída naquelas terras. E ele estava deixando tudo para trás, de uma hora para outra. O que ninguém sabia era que ele não estava se desligando de vez do Brasil. Poderia não mais morar no Pantanal, mas nunca se desligaria de vez dele, e voltaria ali muitas vezes. Estava apenas invertendo o processo: agora, ficaria próximo do seu mercado de interessados em participar dos safáris.

O Brasil não saiu do pensamento deles. Indo viver no Sudeste da Pensilvânia, Edith e Sasha Siemel compraram uma propriedade rural e a batizaram de “Bom Retiro”, em português mesmo. E ele começou logo a aproveitar comercialmente sua experiência de vida, e à da própria família, nas inóspitas florestas brasileiras. Ainda em 1947 mesmo, participou da montagem e edição de um filme chamado “The Jungle Family” — “A família da selva”.

 

Sasha Siemel: vida no “inferno verde”

 

Exibido em todo o mundo, com razoável sucesso, além de mostrar Sasha Siemel, Edith e os filhos vivendo no “inferno verde” do nosso Pantanal, uma das tomadas principais, a mais forte da película, o traz lutando com uma onça-pintada, armado apenas com frágil zagaia. Como naquela época ninguém dava a menor bola para o politicamente correto, o animal acaba morto, sacrificado para atrair mais e mais espectadores, mesmo em preto e branco.

Sabe-se que aquilo foi preparado. O animal, mantido muito tempo em cativeiro, alimentado se necessidade de caçar, estava com seus instintos de sobrevivência atrofiados. O combate foi assistido por diversos espectadores, todos munidos de filmadoras, um luxo para aquela época. Apesar disso, apenas uma conseguiu captar bem as imagens, usadas para montar o falso espetáculo, mas aplaudido por pessoas de todas as idades, nos mais diferentes países.

Sasha Siemel levou uma vida boa, profícua e tranquila nos Estados Unidos da América. Ele dividia-se entre diversas atividades, sem deixar de fazer suas expedições à América do Sul. Ajudava-o bastante ser um cidadão do mundo seu domínio pleno de seis idiomas: alemão, espanhol, inglês, letão, português e russo. E ele trabalhava com sucesso sua fama de maior caçador de onças-pintadas que já existiu, feito impossível de ser questionado por alguém.

 

Sasha Siemel: museu com suas lembranças

 

Ele dizia ter matado mais de 300 destes maiores felinos do Hemisfério Ocidental, e terceiro em tamanho no mundo, perdendo apenas para tigre e leão. Lançou quatro livros sobre suas aventuras, um deles em coautoria com a esposa, todos de bastante sucesso. Sabendo usar isso a seu favor, ganhava muito dinheiro trazendo norte-americanos abastados para caçar os animais pelo Pantanal. Fez isso até a caça ser proibida de vez no Brasil, em janeiro de 1967.

Outra situação interessante era que, durante as viagens, Sasha Siemel oferecia aos clientes a possibilidade de ter suas aventuras filmadas. Evidentemente, o custo ficava bem mais caro. Aliás, ele tinha certo pendor para estas coisas de cinema e filmes. Tanto é que participou de séries cinematográficas sobre caçadas de onças-pintadas, sempre em papéis de destaque, como líder de expedições, conhecedor dos segredos das florestas, respeitado pelos nativos…

Montou um museu na cidade de Perkiomenville, também no Estado da Pensilvânia. Para isso, utilizou as instalações de antigo moinho. Sasha Siemel mostrava aos visitantes, com muito orgulho, uma quase interminável coleção de armadilhas para capturar animais, armas de calibres e tamanhos variados, curiosidades adquiridas em suas viagens, equipamentos usados em caçadas, moedas de diversos países, obras de arte, troféus e utensílios indígenas.

 

Sasha Siemel: exímio na gestão da fama

 

O museu fechou em 1969, após a última viagem de Sasha Siemel ao Pantanal, na qual ele guiou um grupo de geólogos pela região. É interessante saber que também foi modelo de anúncio publicitário, com sua imagem de homem decidido, amadurecido pelo tempo, sendo usada para vender um uísque desconhecido: Imperial. E fica a pergunta: o que teria a dizer hoje, quando caçar animais passou a ser crime ambiental em praticamente todo o mundo?

Para concluir, primeiro, uma opinião pessoal: são notórias as capacidades de mentir de caçadores e pescadores. E me intrigou saber que Sasha Siemel dizia ter caçado mais de 300 onças-pintadas durante sua vida. Seria isso verdade? É um número razoável? Fiz alguns poucos cálculos e cheguei à conclusão que sim. Não estava contando vantagem. Sua primeira caçada aconteceu em 1925 e faleceu em 1970. Então, foram 45 anos de atividade.

Neste período, viveu um tempo no Brasil e bem mais fora do País. Mesmo morando aqui, não tinha como ficar todos os dias no mato. Podemos supor que fazia isso em metade do tempo. Então, são 22 anos e meio; 22 para simplificar. Dividindo 300 por 22, temos 14 onças-pintadas por ano. Essa é uma quantidade bem razoável para um profissional como ele. Afinal, muitas vezes, matava várias numa única saída. Taí recorde difícil de ser batido.

 

Élio Casagrande: um Sasha Siemel capixaba

 

E, finalmente: em julho de 2008, entrevistei o senhor Élio Casagrande, considerada a última pessoa a matar uma onça, vamos dizer “oficialmente”, na Região de Montanhas do Estado do Espírito Belo e Santo. Seu depoimento foi publicado na edição 49 do Informativo Dia a Dia Pedra Azul. Como são assuntos correlatos, tomei a liberdade de reproduzir aquela página neste post. O exemplar completo pode ser lido em versão PDF, no modo flip, clicando aqui.

 

Maior caçador de onças-pintadas do Pantanal eliminou 300 animais em 45 anos

Página 1 da edição 49, referente a julho de 2008, do Informativo Dia a Dia Pedra Azul, com a matéria sobre o último matador “oficial” de onças na Região de Montanhas do Estado do Espírito Belo e Santo

 


 

Matéria desenvolvida a partir dos seguintes investimentos do Governo do Estado do Mato Grosso:

• Participação no fampress de jornalistas brasileiros e estrangeiros, dias 16 a 19 de abril de 2016, pelos seguintes destinos do Estado do Mato Grosso: Município de Cáceres, Município de Chapada dos Guimarães, Município de Campo Novo dos Parecis, Município de Cuiabá,Município de Jaciara e Município de Nobres; e,

• Acompanhamento da Feira Internacional de Turismo do Pantanal — FIT Pantanal 2016, dias 20 a 24 de abril, no Centro de Eventos do Pantanal, na cidade de Cuiabá, capital do Estado.