Estudo analisou leito do Rio Cuiabá próximo a três grandes usinas da época áurea da cultura da cana de açúcar. Ideia é criar navegação de passageiros associada à visitas ao patrimônio histórico lá existente. Acervo da Usina de Itaicy, mesmo deteriorado, é o mais representativo.

 

FIT Pantanal 2016: dragagem de trecho do Rio Cuiabá pode gerar projeto de turismo

 

Uma das mais interessantes apresentações compondo a grade de palestras desenvolvida durante a Feira Internacional de Turismo do Pantanal — FIT Pantanal 2016 trouxe à luz estudo de prospecção do fundo de trecho do Rio Cuiabá. Ele foi feito num segmento daquele curso d’água cruzando o Município de Santo Antônio de Levergere, cerca de uns 100 quilômetros ao Sul da cidade de Cuiabá, a capital do Estado do Mato Grosso.

O trabalho levantou informações sobre a situação do leito, para balizar a realização de possíveis serviços de dragagem de areia e remoção de pedras naquele intervalo. A ideia é torná-lo em condições de ser navegado com segurança, por barcos de passageiros. Isso faria parte de um grande projeto de aproveitamento da rica história local, dando partida à formatação de investimentos, serviços e produtos ligados à exploração do turismo.

Aquelas margens são testemunhas do surgimento, crescimento, auge e decadência de uma das maiores indústrias já existente no Brasil, a Usina de Açúcar Itaicy. Além dela, também estariam integradas aos roteiros os patrimônios históricos da Usina Aricá e da Usina Tamandaré, também de grande expressão no período áureo daquela cultura, que vai do final do século XIX (os anos 1800) até meados do século XX (os anos 1900).

 

FIT Pantanal 2016: dragagem de trecho do Rio Cuiabá pode gerar projeto de turismo

Os estudos visaram três áreas específicas do trecho do Rio Cuiabá entre o Município de Santo Antônio de Levergere e o Município de Barão de Melgaço: a Área 1, próxima à antiga Usina de Aricá: a Área 2, junto à Usina de Itaicy; e, a Área 3, onde fica a Usina de Tamandaré

 

Para facilitar as análises, as pesquisas aconteceram em apenas três áreas, cada uma delas relacionada com um daqueles empreendimentos já seculares, e distribuídas segundo o sentido da correnteza: Área 1 — Usina Aricá; Área 2 — Usina Itaicy; e, Área 3 — Usina Tamandaré. Os dados levantados e estudados mostram o fundo do Rio Cuiabá com partes em rocha, outras em areia e grandes espaços formados por sedimentação.

Como é praticamente impossível fazer a retirada das primeiras a custo razoavelmente accessível, o conhecimento resultante oferece as condições de se realizar dragagem e retificações apenas em pontos onde se mostram necessárias. Para os demais, basta mapear e sinalizar rotas a serem seguidas pelas embarcações. O fluxo de águas criado pelo movimento das hélices e a passagem dos cascos vai carrear o material excedente.

 

Imagens da situação atual das instalações da Usina de Itaicy: destruição causada pelo tempo e vandalismo

 

Usina de Itaicy foi empreendimento industrial à frente do seu tempo no interior do Estado do Mato Grosso

Vista aérea das instalações da Usina de Itaicy, mostrando sua proximidade com o leito do Rio Cuiabá

 

Usina de Itaicy foi empreendimento industrial à frente do seu tempo no interior do Estado do Mato Grosso

Um dos destaques no conjunto arquitetônico das instalações da Usina de Itaicy é sua chaminé, toda erguida em tijolinhos maciços e com 50 metros de altura

 

Usina de Itaicy foi empreendimento industrial à frente do seu tempo no interior do Estado do Mato Grosso

O prédio principal da Usina de Itaicy tinha uma arquitetura diferenciada, com seu projeto tendo sido elaborado por arquitetos alemães

 

Usina de Itaicy foi empreendimento industrial à frente do seu tempo no interior do Estado do Mato Grosso

Outro grande diferencial do prédio principal da Usina de Itaicy é ter sido projetado com três pisos, o que era bastante incomum naquele final do século XIX, anos 1800

 

Usina de Itaicy foi empreendimento industrial à frente do seu tempo no interior do Estado do Mato Grosso

Apesar da destruição causada pelo abandono e atos de vandalismo, as estruturas das construções da Usina de Itaicy impressionam pela beleza das formas e resistência ao tempo

 

Usina de Itaicy foi empreendimento industrial à frente do seu tempo no interior do Estado do Mato Grosso

O acervo ainda existente no complexo da Usina de Itaicy foi tombado pelo Patrimônio Histórico do Estado do Mato Grosso em 1984

 

Usina de Itaicy foi empreendimento industrial à frente do seu tempo no interior do Estado do Mato Grosso

Apesar de relegado ao tempo, a qualidade dos equipamentos da Usina de Itaicy é tão boa que nem a ferrugem os destruiu depois de mais de um século

 

Usina de Itaicy foi empreendimento industrial à frente do seu tempo no interior do Estado do Mato Grosso

Os equipamentos da Usina de Itaicy, comprados na Alemanha, chegaram ao local em pequenas balsas, navegando sobre as águas do Rio Cuiabá

 

Usina de Itaicy foi empreendimento industrial à frente do seu tempo no interior do Estado do Mato Grosso

 

No final do século XIX, anos 1800, o Município de Santo Antônio de Leverger tinha grande força na produção de açúcar, aguardente e álcool no Estado do Mato Grosso. No seu território, estavam em operação as maiores usinas de todo o Centro-Oeste do País: Aricá, Conceição, Itaicy, Maravilha, São Miguel, São Sebastião e Tamandaré. E a de Itaicy, do coronel Antônio Paes de Barros, destacava-se com sua estrutura avançada.

Situada a aproximadamente 40 quilômetros do Centro da cidade de Santo Antônio de Leverger, à margem direita do Rio Cuiabá, foi a primeira a ser implantada. As obras começaram em 11 de junho de 1896, sendo concluídas no tempo recorde de 14 meses. Estima-se em torno de 1.000 os operários responsáveis por sua construção. O prédio principal, em tijolinhos maciços, tinha três pisos, solução inovadora naquela época.

Aos fundos, um alpendre para o maquinário de limpeza da cana e separação da matéria-prima. A produção era proveniente de tecnologia das mais modernas, pois todo o parque de máquinas foi importado da Alemanha, com o trecho final do seu transporte pelo Rio Cuiabá. Além das instalações industriais, o coronel Antônio Paes de Barros mostrou-se um empresário à frente do seu tempo, investindo em benfeitorias para os empregados.

Num período em que condições adequadas para o trabalho e direitos dos funcionários nem eram considerados pelos patrões, ergueu uma vila para abrigar os operários, com casas de boa qualidade, escola para as crianças, igreja, farmácia, padaria e armazém com estoques diversificados e preços em conta. Além de fornecer energia elétrica grátis para todos, patrocinava banda de música que executava retretas na praça, aos domingos.

Em determinado período, a Usina de Itaicy acumulou tanto poder que chegou a cunhar sua própria moeda. Com moldes vindos diretos da Casa da Moeda, situada na Cidade Maravilhosa do Rio de Janeiro, então Capital Federal, imprimia dinheiro numa velha prensa gráfica. Sua época de maior esplendor durou de 1900 a 1920, intervalo em que chegou a abrigar dentro de sua influência uma população perto de cinco mil pessoas.

Entrou em decadência a partir do início dos anos 1930, por não ter como competir com usinas mais modernas, sendo instaladas por toda a Região Nordeste do País e no Estado de São Paulo. Parou de produzir em 1957. Desativada, e sendo destruída tanto pelo passar do tempo quanto por atos de vandalismo, ainda guarda boa parte de sua história, expressa nas ruínas das edificações, maquinário abandonado e mobiliário preservado.

Todo o conjunto está tombado como Patrimônio Histórico do Estado de Mato Grosso desde 1984. Em 2006, foi criado o Instituto do Itaicy, Organização Não-governamental — ONG com o objetivo de restaurar o acervo existente e transformá-lo em atração para o turismo. A entidade montou um projeto e o aprovou dentro da Lei Rouanet, iniciando a captação dos recursos necessários. Infelizmente, não alcançou sucesso nesta iniciativa.

 

Usina de Itaicy foi empreendimento industrial à frente do seu tempo no interior do Estado do Mato Grosso

Vista da unidade principal da Usina de Itaicy nos primórdios do século XX, com boa parte dos seus funcionários formados à frente da edificação

 

Usina de Itaicy foi empreendimento industrial à frente do seu tempo no interior do Estado do Mato Grosso

Vista do interior do prédio principal da Usina de Itaicy, com seus funcionários ao lado dos equipamentos de produção de álcool, aguardente e açúcar

 

Usina de Itaicy foi empreendimento industrial à frente do seu tempo no interior do Estado do Mato Grosso

Vista do canavial que produzia a matéria-prima para a Usina de Itaicy, cujo transporte era feito por um sistema próprio de pequena estrada de ferro

 

Usina de Itaicy foi empreendimento industrial à frente do seu tempo no interior do Estado do Mato Grosso

Instalações da escola para as crianças e da banda de música mantidas pela Usina de Itaicy

 


 

A apresentação da palestra sobre os estudos para dragagem de trecho do Rio Cuiabá com vistas à criação naquele local de um projeto de navegação de passageiros voltado ao aproveitamento do acervo histórico lá existente em um projeto de exploração de turismo foi feita pelo geólogo Marcos Vinícius Paes da Barro, funcionário da Companhia Mato-Grossense de Mineração — Metamat. Pode-se notar pelo seu sobrenome que é parente do fundador da Usina de Itaicy, o coronel Antônio Paes de Barros.

 


 

Os estudos no trecho do Rio Cuiabá são resultado de um levantamento sísmico realizado nos dias 13 a 17 de outubro de 2014, através de Acordo de Cooperação Cientifica com a Universidade de Brasília — UnB, suporte tecnológico da empresa Rural Tech e apoio logístico da Companhia Mato-Grossense de Mineração — Metamat, tendo sido custeado pelo Instituto do Itaicy.

 

 


 

 

Matéria desenvolvida a partir dos seguintes investimentos do Governo do Estado do Mato Grosso:

 

• Participação no fampress de jornalistas brasileiros e estrangeiros, dias 16 a 19 de abril de 2016, pelos seguintes destinos do Estado do Mato Grosso: Município de Cáceres, Município de Chapada dos Guimarães, Município de Campo Novo dos Parecis, Município de Cuiabá,Município de Jaciara e Município de Nobres; e,

 

• Acompanhamento da Feira Internacional de Turismo do Pantanal — FIT Pantanal 2016, dias 20 a 24 de abril, no Centro de Eventos do Pantanal, na cidade de Cuiabá, capital do Estado.