Otto Walter Schmiedt, especialista em turismo religioso com sucesso comprovado, estrutura um projeto para o Estado do Espírito Santo. Elenca sugestões simples, aproveitando o que já existe. E propõe atividades para o ano todo, com roteiros sempre privilegiando pelo menos um pernoite.

 

Entrevista a Maria Amália Queiroz Bello e João Zuccaratto. Texto final deste último.

 

Estado do Espírito Santo desenvolve projeto para alavancar de vez seu Turismo Religioso

O Convento da Penha, localizado na Cidade Canela Verde de Vila Velha, a cidade mais antiga do Estado do Espírito Belo e Santo, e maior ícone do Turismo Religioso em terras capixabas, segmento a ser melhor aproveitado a partir da santificação do Padre José de Anchieta

 

Estado do Espírito Santo: potencial em turismo religioso

 

O Estado do Espírito Belo e Santo sempre teve enorme potencial em Turismo Religioso. E este ficou maior ainda com a santificação do Padre José de Anchieta. Entretanto, não aproveita essa vocação na plenitude ideal. As causas dessa defasagem são inúmeras: ausência de divulgação nos mercados emissores, falta de calendário um anual estadual, eventos municipais superpostos, empreendedores atuando isoladamente e segue por aí.

Ciente dos problemas, a seccional capixaba do Serviço de Apoio às Micro e Pequenas Empresas — Sebrae-ES está liderando ações para mudar radicalmente esse panorama. Começou com visita técnica de empresários do Município de Anchieta e do Município de Vila Velha a um polo vitorioso neste segmento: a Cidade de Nova Trento, ao Norte da Cidade Ilha do Mel de Florianópolis, capital do Estado da Santa e Bela Catarina.

Aquela localidade é conhecida dentro do Brasil e fora do País por abrigar o Santuário de Nossa Senhora do Bom Socorro e o Santuário de Santa Madre Paulina. Esta última foi declarada a primeira santa brasileira, de acordo com a Igreja Católica. E isso tem sido aproveitado, tanto pela comunidade quanto pelos empreendedores, para dinamizar o fluxo de turistas, situação semelhante à desejada para o Estado do Espírito Santo e Belo.

Lá, os capixabas conheceram o responsável por aquele sucesso: Otto Walter Schmiedt. Gaúcho formado em Agronomia, vive na Cidade Ilha do Mel de Florianópolis. E achou sua verdadeira vocação na consultoria de projetos de turismo. Já desenvolveu trabalhos de turismo em suas diversas modalidades na Ilha do Marajó, no Estado do Pará, Sul do Estado da Bahia e Região Sul do Brasil, mas tem especial apreço pelo Turismo Religioso.

Convidado a fazer um diagnóstico e, posteriormente, projeto de Turismo Religioso para o Estado do Espírito Belo e Santo, visitou alguns destinos no final de 2015. Sua estratégia foi iniciar os trabalhos pelo Município de Anchieta e pelo Município de Vila Velha. Mais além, antevê cobrir todo o trajeto percorrido por São José de Anchieta, indo do Município de São Mateus, ao Norte, até o Município de Presidente Kennedy, ao Sul.

O eixo central da sua proposta é o São José de Anchieta. Mas o planejamento alarga a oferta de eventos para os 12 meses do ano, focando naquilo que define como os quatro pilares do turismo em qualquer de suas muitas modalidades: hospedagem, alimentação, entretenimento e compras. Explica: “São elas as promotoras de receita, motivadoras de investimentos, criadoras de empregos, distribuidoras de renda, geradoras de impostos.”

Nesta entrevista, reproduzida em forma de depoimento, Otto Walter Schmiedt apresenta sua visão sobre o turismo desenvolvido em terras capixabas, mostra razões das vitórias alcançadas no Município de Nova Trento, detalha fases iniciais do seu trabalho, explica as primeiras ações, sugere opções de caminhos a serem seguidos e esclarece como vai trabalhar para mudar o panorama hoje existente agregando valor aos diferenciais locais.

 

Estado do Espírito Santo desenvolve projeto para alavancar de vez seu Turismo Religioso

Visita do final de 2015: Otto Walter Schmiedt; técnica em Turismo da Prefeitura de Anchieta, Balbina Pereira Fontes; assessor do Santuário Nacional de São José de Anchieta, Igor Lourencini Vetorazzi; e, analista do Sebrae-ES, Mariana Rodrigues

 

É preciso acabar com a falta de conexão. Integrar tudo

 

Buscamos qualidade, não quantidade. O objetivo não é bater recorde e ser bombardeado com reclamações: atropelaram tudo, agrediram o meio ambiente, não teve espaço para dormir, comida péssima e bem mais. O crescimento deve ser constante, progressivo, sustentável. Tem pressa, mas não correria. Criamos bases. Depois, os empreendedores erguem em cima. Eles são os responsáveis pelos negócios e pelos resultados destes.

No Brasil, Turismo Religioso é quase sinônimo de Turismo Católico. Por quê? Vivemos 300 anos sob domínio dos reis de Portugal e catolicismo como crença oficial. Foram quase 100 anos de Império, na mesma situação. A herança construída por esses quatro séculos é muito grande. Mas, membros de qualquer outra denominação também atuam. Eles organizam encontros, promovem retiros, fazem viagens e têm muito a contribuir.

Tenho ligação forte com Turismo Religioso porque, ao me envolver, visto realmente a camisa. Trabalho e confio, usando o lema da bandeira deste Estado. Mas é assim com todos os outros segmentos. Agora mesmo, estou envolvido na estruturação de uma Rota Cervejeira, lá no Estado de Santa Catarina. Ano passado, concluí um projeto de turismo de experiência envolvendo 15 operadores, nenhum deles do Religioso. Mergulho 100%.

Sendo de fora, olho o turismo de vocês como visitante. Comparo minhas expectativas com a realidade. Usando a experiência acumulada em vários anos trabalhando com a atividade, começo a delinear possíveis soluções. Apresento-as para debate, discussão, aprovação, adoção. Colocadas em prática, não resolvem nada sozinhas. É preciso ter a adesão de todos: hoteleiros, proprietários de receptivos, donos de bares, quiosqueiros…

Não conhecia o Estado do Espírito Santo. Vim a primeira vez no final de 2015, para o começar o diagnóstico do projeto de Turismo Religioso. Fiquei poucos dias, rodando o tempo todo. O que notei é o mesmo percebido em todos os outros Estados do Brasil: potencial enorme, pouco aproveitamento. Vocês têm diferenciais excelentes: aventura, cultura, ecologia, história, gastronomia, montanha, praia. Só falta mesmo o marketing.

Precisa acabar a falta de conexão. Isso ocorre em outros Estados, do turismo ser operado desconectado. Vocês são bons em Turismo de Eventos e Turismo de Negócios, mais forte na capital e as cidades do entorno. Esse manancial precisa ser aproveitado pelos outros tipos de turismo, principalmente o Religioso. Já na chegada ao hotel, o participante deve receber informações claras, precisas, até com valores, sobre passeios, visitas, compras.

 

Estado do Espírito Santo desenvolve projeto para alavancar de vez seu Turismo Religioso

Acabando com falta de conexão entre os diversos segmentos do turismo, o belíssimo Santuário Nacional de São José de Anchieta, no Centro da Cidade de Anchieta, vai se tornar um dos mais visitados pontos de turismo religioso do Estado do Espírito Santo

 

Padre Anchieta tem uma história maravilhosa

 

Também estruturar calendário e ampliar o leque. Tem de ter atividades o ano todo para todos os tipos de turismo, e trabalhar mais segmentos. Além do Sol e do mar, há aqui Turismo Rural exemplar. Infelizmente, Turismo Rural não traz turista de fora, ou traz bem pouco. Por quê? Porque todo Estado tem Turismo Rural, e todos trabalham bem isso, há muito tempo. O segredo? Fazer aparecer aquilo que os outros não têm. E divulgar isso!

O potencial em Turismo Religioso do Estado do Espírito Santo é igual ou até maior do que o do Estado da Bahia, do Estado de Minas Gerais ou do Estado do Rio de Janeiro, só para citar os vizinhos. Mais do que naqueles três destinos, aqui pode-se misturar as tradições africanas, rituais indígenas e celebrações cristãs com cultura, pois esse é o patrimônio sendo deixado de lado quando se associa a imagem do São José de Anchieta.

Santa Madre Paulina e São José de Anchieta são diferentes. No Município de Nova Trento, ainda há pessoas que a conheceram, conviveram com ela. Além de recente, era religiosa de acolhimento, atender doentes, tratá-los. Anchieta viveu, trabalhou, morreu no século XVI, anos 1500. Foi o típico jesuíta: culto, educador, empreendedor, político. Criava poemas, escrevia peças de teatro. Ou seja: uma personalidade ligada à cultura.

O que fazer para religar São José de Anchieta aos tempos atuais? Recuperar elementos ícones da vida dele. O religioso já existe. Então, buscar os aspectos de cultura, pintura, poesia e teatro, além da gastronomia indígena. O pessoal das praias de Iriri já promove Festival de Frutos do Mar. É fazer semelhante, recuperando receitas dos nativos ou dos conventos. Exemplo: doces do Município de Pelotas, no Estado do Rio Grande do Sul.

São José de Anchieta tem história de vida maravilhosa. Mesmo com sérios problemas de saúde, nunca se deixava abater. Aprendeu a língua tupi rapidamente e produziu uma gramática sobre o idioma. O povo precisa abraçá-lo com mais fervor, tornando-o tão conhecido quanto moqueca capixaba e panela de barro. Quem sabe, incluir isso até na identificação desta terra sem igual: Estado do Espírito Santo, de São José de Anchieta.

O capixaba precisa incorporar o São José de Anchieta no seu discurso comum do dia a dia. E, sempre que se referir ao Estado, citá-lo também. Expressar orgulho por ele ter vivido e estar enterrado aqui. Seria bem interessante se, ao se aproximar do Aeroporto de Vitória, os pilotos dos aviões avisassem: “Estamos chegando ao Estado do Espírito Santo, a terra do São José de Anchieta, da moqueca capixaba e da panela de barro.”

 

Estado do Espírito Santo desenvolve projeto para alavancar de vez seu Turismo Religioso

O povo precisa abraçar São Padre José de Anchieta com mais fervor, tornando-o tão conhecido quanto moqueca capixaba e panela de barro. Quem sabe, incluir isso até na identificação desta terra sem igual: Estado do Espírito Santo, de São José de Anchieta.

 

Construir uma imagem do Santo em Anchieta

 

Mais que os moradores dos outros 77 Municípios, os habitantes da Cidade de Anchieta precisam adotar o São José de Anchieta com maior ênfase. A gente pergunta por lá a barqueiro, dono de loja, quiosqueiro, de onde ele é e ouve respostas como “Sou de Iriri.”; “Sou da Praia de Castelhanos.” Está errado! ” O certo é: “Sou da Cidade de Anchieta, ou da Cidade do São José de Anchieta, e trabalho na Praia de Castelhanos.”

É fundamental o Município de Anchieta se apropriar mais da existência do São José de Anchieta. Esse diferencial só eles têm no País todo. Hoje, há o Santuário Nacional e pouco além disso. Aquela praia, acho que Praia Central, poderia chamar-se Praia do Santo. Uma ruína, à direita da foz do Rio Benevente, deveria dar lugar a uma estátua dele, como a Cidade de Juazeiro do Norte, no Estado do Ceará, fez com o Padre Cícero.

Subindo o Rio Benevente, há uma ruína bem próxima. Segundo o guia de turismo, é construção mais recente, anos 1700 ou 1800. Não existem informações corretas sobre ela. Como há registros de ter funcionado cinco fábricas de cal, antigas caieiras, próximo à foz do rio, me parecem restos de uma delas. Aliás, a viço da vegetação ali existente mostra correção do solo pela presença de cal ou das conchas depositadas próximo dali.

Ela nada tem a ver com os jesuítas? Tudo bem! Só que a ida de barco até lá poderia ser chamada de “Passeio do Santo”. A justificativa? Segundo informações, São José de Anchieta também tinha um barco, usado para cruzar os rios da região. Isso tem de ser um método: surgindo algo novo, associa logo. É São José de Anchieta para cá, São José de Anchieta para lá, para tudo, o tempo todo, vendendo esse conceito a todo momento.

Vejo o Rio Benevente com aproveitamento bem maior, similar ao que fizemos na Ilha do Marajó: conhecer o manguezal. O Estado do Espírito Santo tem poucos mangues em condições de serem visitados. E o da Cidade de Anchieta é um desses. Serve para se conhecer os caranguejos, modo de viver e trabalhar dos catadores, plantas medicinais, o chamado “mangue vermelho”, usado para dar cor às panelas de barro e curtir o couro.

Faz o passeio de canoa. Muito bom! Conheci guias lá excelentes. Uns falam muito bem, outros falam menos, mas todos conhecem a área como ninguém, as espécies, período de defeso. Na verdade, não há necessidade de o canoeiro discursar. Se é calado, mas pilota bem, coloca um guia especializado em ambiente, ecologia, junto. Tem muita garça-azul, papagaios e outras aves usando as árvores ocas como ninhais. É atrativo de qualidade.

O Estado do Espírito Santo tem um nome respeitado em pintura: Homero Massena, com obra calcada em motivos religiosos. Há um museu dedicado a ele, na casa em que viveu, situada na Prainha, aos pés do Convento da Penha. Ao lado, a Igreja de Nossa Senhora do Rosário, das mais antigas do País. Podemos ter no entorno oficinas de arte, juntando tudo: Convento da Penha, Homero Massena, Igreja do Rosário, São José de Anchieta…

 

Estado do Espírito Santo desenvolve projeto para alavancar de vez seu Turismo Religioso

Subindo o Rio Benevente, há uma ruína. Segundo o guia de turismo, é construção recente, anos 1700 ou 1800. Não existem informações corretas. Como há registros de ter funcionado cinco caieiras, próximo à foz do rio, me parecem restos de uma delas

 

Passos de Anchieta precisa ter mais um dia

 

Os empresários do Município de Anchieta não estão tendo retorno adequado com os Passos de Anchieta no formato atual. Segundo informam, os andarilhos ficam pouco na cidade: chegam e partem em seguida. Enquanto isso, o Município de Vila Velha tem um pernoite, assim como o Município de Guarapari. Como mudar? Antecipando a saída em um dia e criando um evento de conclusão: missa no Santuário, com espetáculo de fogos.

Depois de caminhar 100 quilômetros, vai dormir por volta da meia-noite, gerando uma hospedagem. Acorda tarde no domingo e, antes de voltar para casa, caminha pela Praia do Santo, visita a estátua de São José de Anchieta, passeia no manguezal, conhece as ruínas no Rio Benevente, compra algumas lembranças, almoça um prato típico daquela época e assim por diante. São gastos pequenos, mas significativos para economia local.

Vocês têm exemplo de sucesso sobre antecipação de eventos: o desfile das Escolas de Samba da Cidade de Vitória, uma semana antes daqueles da Cidade de São Paulo e da Cidade do Rio de Janeiro. Na mesma data, sofriam concorrência. Agora, têm briga pelos ingressos, são transmitidos ao vivo pela Rede Bandeirantes de Televisão, com audiência maior até do da Cidade de Salvador, atraem turistas até do exterior. Um grande achado!

Outra coisa: copiar o exemplo dos Caminhos de Santiago de Compostela. A maior parte das pessoas faz a caminhada por etapas. Cinquenta quilômetros uma vez, 50 noutra, até chegar ao final. Voltam duas, três, quatro vezes, movimentando a economia em diversos pontos da jornada. Quer fazer de uma vez só, tudo bem! Mas precisa-se dar a opção de quebrar isso em segmentos, gerando uma motivação para aquele mesmo turista retornar.

A ideia de ter de caminhar 100 quilômetros de uma vez, mesmo que em quatro dias, assusta muita gente. Existe a oportunidade de vender os Passos de Anchieta em etapas. Vem num ano, faz uma parte; vem no seguinte, faz outra; no terceiro, mais outra; no quarto, completa. Muita gente vai optar pelo conforto dessa modalidade. Imagina mil pessoas decidindo assim o quanto vai gerar de receita para o negócio como um todo.

Antecedendo os Passos de Anchieta, há as caminhadas de aquecimento. Hoje, elas não têm identificação. Fica mais ou menos assim: “Aquecimento 1”, “Aquecimento 2”, “Caminhada do Dia Tal”. Que charme tem isso? Agora, chamadas de “Caminhada do Poema”, “Caminhada do Refém”, “Caminhada da Canonização” ou “Caminhada da Santificação”, muda completamente. E ainda agregar atividades relacionadas aos temas.

 

Estado do Espírito Santo desenvolve projeto para alavancar de vez seu Turismo Religioso

Concluído o Passos de Anchieta, dorme na Cidade de Anchieta, gerando hospedagem. Acorda no domingo, caminha na Praia do Santo, passeia pelo Rio Benevente, compra lembranças, almoça… São gastos pequenos, mas significativos para economia local

 

Roteiro deve priorizar pelo menos um pernoite

 

Outro grande problema do Turismo Religioso é as pessoas não pernoitarem. Na Cidade de Nova Trento, rompemos com esse círculo vicioso, oferecendo atividades noturnas. Exemplo: vi um canal de TV daqui exibir matéria sobre prática de dança numa igreja. Isso dá para incluir em roteiro de Turismo Religioso, como opção para Melhor Idade. Rock, sertanejo? Só se for apenas com músicas religiosas, atraindo o público jovem.

No meu conceito, turismo se assenta em quatro pilares básicos: atrativos, alimentação, compras e hospedagem. Mas este último é preponderante. Por definição, considera-se como turista aquele que passa pelo menos 24 horas num destino. Tem de haver pernoite. Ele gera receita e aumenta os gastos com os outros três. O segredo está em montar uma estratégia capaz de fazer com que o visitante fique mais tempo, pelo menos só um dia.

O pernoite é a principal razão do sucesso no Município de Nova Trento. Antes, era no sistema bate-volta: saía de madrugada, chegava pela manhã, visitava tudo que podia e retornava no final da tarde. Muitos traziam lanche de casa. Praticamente, só deixavam lixo na cidade. Como mudamos isso? Agregando coisas para fazer. Não criamos nada. Simplesmente, pegamos o que já se fazia por lá e integramos aos pacotes já existentes.

Hoje, o turismo religioso do Estado do Espírito Santo é distribuído em eventos pontuais: Festa da Penha, com suas romarias, Passos de Anchieta, Corpus Christi, Festa de São Benedito. Acontecem uma vez por ano e pronto. Assim não funciona. Esses eventos têm de se prolongar durante todo o ano. Mesmo um turista vindo para cá curtir o Carnaval, por exemplo, precisa ter a oportunidade de aproveitar as opções de turismo religioso.

O Município de Castelo é benchmarking em tapetes de Corpus Christi. Quando estive lá ano passado, o pessoal falou: “São Paulo está pedindo para irmos lá ensinar. ” Retruquei na hora: “Errado! Convidem para vir aqui. ” Isso vai gerar hospedagem, alimentação, compras e entretenimento, as quatro bases do turismo. Sempre que alguém pedir algo, tente trazer para cá, para ficar uma semana. Acolha na fé, mas gere economicamente.

Além disso, poderiam ter tapetes o ano todo, não apenas no final de semana do Corpus Christi. A Cidade de Castelo precisa se apropriar, turisticamente, dos tapetes. Exemplo: vai ter um casamento? A noiva entra na igreja pisando sobre um tapete. Numa festa, os convidados entram pisando sobre um tapete. E assim por diante. Manter oficinas sobre confecção de tapetes o tempo todo, permitindo aos turistas verem como eles são feitos.

 

Estado do Espírito Santo desenvolve projeto para alavancar de vez seu Turismo Religioso

O Município de Castelo precisa exibir tapetes de Corpus Christi o tempo todo. Vai ter casamento? Noiva entra na igreja pisando sobre um? Festa? Convidados fazem a mesma coisa. Manter oficinas de confecção, permitindo aos turistas verem como eles são feitos

 

Município de Guarapari não pode ficar fora

 

Turismo Religioso está muito ligado à Melhor Idade. Sei que o grande boom do turismo aqui do Estado, nas décadas de 1950 e 1960, até mesmo 1970, foi Turismo de Saúde, em virtude das areias monazíticas do Município de Guarapari, boas para curar problemas nas articulações. Dá para trabalhar isso, também. Melhor Idade encaixa bem com isso. E a cidade é parte integrante dos caminhos percorridos a pé pelo São José de Anchieta.

Justifica colocar as praias de Guarapari no roteiro. Uma caminhada de 30 minutos, uma hora. Me disseram que tem lá o Poço dos Jesuítas, bem no Centro da cidade. Excelente! Aliás, lá no Município de Anchieta, estão reabrindo um poço dos jesuítas. Demoliram o que estava em cima, vão recuperar o visual, fazer análise da qualidade da água. Isso tem valor inestimável, enriquece o acervo de monumentos ligados à história e à religião.

Junto à entrada do Convento da Penha, há várias lojinhas oferecendo lembranças. Que tal um up grade ali, buscando transformá-las em ateliers de arte? Que tal fechar uma ou duas ruas periodicamente, transformando-as na Galeria a Céu Aberto de Nossa Senhora da Penha com uma bela feira de artesanato, oficinas gratuitas de pintura e de escultura, encenações diversas, dando movimento àquilo que hoje está muito tento, quase parado.

Uma notícia legal, é que a Igreja Católica do Estado do Espírito Santo está criando sua Pastoral do Turismo, igual à existente na Conferência Nacional dos Bispos do Brasil, a CNBB. Isso vai ao encontro a uma ideia minha, de se ter os “Diáconos do Turismo”. Eles se somarão a guia nacional, guia regional, condutor. Aí, me criticam, afirmando: “Para que Diácono do Turismo? Guia do Turismo Cultural já atende o Turismo Religioso.”

Eu respondo, a partir da experiência acumulada no trabalho com Turismo Religioso: não atende, mesmo! Turismo Religioso não é descrição de monumentos, explicação de fatos, contação de histórias, como faz o guia de Turismo Cultural. Turismo Religioso vai além. Ele envolve acolhimento, expressão de fé, preocupação com saúde e muito mais. Há um envolvimento pessoal entre guia e turista. Tem de haver treinamento especial para isso.

O projeto que estou desenvolvendo não tem milagre: olhamos o calendário existente, identificamos onde se precisa criar eventos, ordenamos de forma coerente, propomos roteiros sempre com a finalidade de criar pernoites, buscamos quem já está trabalhando e convidamos a integrar o processo. Para os interessados, analisamos com profundidade o que já fazem ou oferecem e, se necessário, ajudamos agregando um ou outro detalhe.

 

Estado do Espírito Santo desenvolve projeto para alavancar de vez seu Turismo Religioso

Turismo religioso é ligado à Melhor Idade. O grande boom do turismo no Estado do Espírito Santo foi turismo de saúde, em virtude das areias monazíticas do Município de Guarapari, boas para curar problemas nas articulações. Dá para trabalhar isso, também

 

Coisas fáceis, simples, nada de superproduções

 

Faço levantamento do que existe e trabalho com quem quer participar. Ou seja: pessoas com vontade de desenvolver alguma coisa. Vamos associando aos eventos já existentes. Se estes não existem, criamos. Turista não pode ficar ocioso. Precisa encontrar opções capazes de fazê-lo decidir permanecer mais um tempinho, um dia que seja. Roteiro ideal é sempre a partir de dois dias, garantindo um pernoite. Este é só um dos meus segredos.

Gosto de coisas simples, nada de superproduções. Pesquiso o que as pessoas já fazem e procuro interessá-las a se integrar aos projetos, fazer parte dos roteiros. Só não podem ser coisas esporádicas. Têm de acontecer o ano todo. Começamos com um calendário para cada Município. Depois de tudo bem azeitado, funcionando direitinho, integramos os Municípios. No final, teremos eventos acontecendo por todo o Estado, o ano todo.

Nesse momento, vamos trabalhar com o Município de Anchieta e o Município de Vila Velha. Tudo indo bem, ano que vem, acrescentamos Município de Castelo e Município de Ibiraçu, com o Mosteiro Zen Budista e o roteiro Caminhos da Sabedoria. Num prazo maior, quem sabe, integramos o Estado todo. Lá no Norte, há coisas no Município de Conceição da Barra e no Município de São Mateus, heranças africanas e Folia de Reis.

No Município de Serra, temos Igreja dos Reis Magos, Igreja de Queimados, Canal dos Escravos e Formigas Bordadeiras. Temos o tour das Três Santas, unindo o Município de Santa Leopoldina, o Município Santa Maria de Jetibá e o Município de Santa Teresa. E, também, o Município de Domingos Martins, com um dos seus maiores orgulhos: ter a primeira igreja luterana do Brasil a ostentar torre, construída quanto isso era proibido.

Fizemos o diagnóstico em dezembro de 2015. Começamos agora em julho. Vamos até novembro com planejamento e roteirização. Vamos ver se em dezembro disparamos o aproveitamento do Advento. O que é o Advento? É preparação para o Natal. São os quatro domingos antecedentes ao nascimento de Jesus Cristo. No Estado do Rio Grande do Sul, é uma tradição forte. Não descobri se ela existe no Estado do Espírito Santo.

Se já existiu, precisamos resgatá-la. Se não existe, criá-la. E trabalhar estes domingos com programação cultural e religiosa: peregrinações por bairros, sarau literário, sarau musical, canto. Soube que a Primeira Igreja Batista da Cidade de Vitória promove um Árvore de Natal Cantante. Excelente! Quem sabe eles fazem passam a fazer parte da programação? Tem muito turista que gosta de acompanhar este tipo de celebração.

 

Estado do Espírito Santo desenvolve projeto para alavancar de vez seu Turismo Religioso

Nesse momento, vamos trabalhar com o Município de Anchieta e o Município de Vila Velha. Tudo indo bem, ano que vem, acrescentamos Município de Castelo e Município de Ibiraçu, com o seu Mosteiro Zen Budista e o seu roteiro Caminhos da Sabedoria

 

Montar um calendário cobrindo o ando todo

 

Será mais um evento ligado ao Turismo Religioso. Ele vai se juntar a Corpus Christi, Folias de Reis, Páscoa, Puxada de Mastro e Semana Santa. Somando tudo, teremos um calendário cobrindo o ano por completo. Criaremos possibilidades de oferecer roteiros de sete dias: começa pelo Norte do Estado, passa pelo Centro, desce para o Sul, sobe as montanhas, termina na capital. Tem muita coisa para ser feita, falta só dar a partida.

Cantei num dos primeiros Natal Luz da Cidade de Gramado, na Serra Gaúcha. O Natal Luz, esta festa enorme hoje, começou singelo. Iniciou com um coral de mil vozes. Era voluntário. Os cantores do Estado do Rio Grande do Sul com interesse em se apresentar colocavam-se à disposição. Tinha apenas transporte. Vocês têm potencial para coisa semelhante neste colar de praias maravilhosas. Está tudo aí, à disposição. Basta boa vontade, iniciativa.

Me perdoem por citar tanto a Cidade de Nova Trento, mas foi lá que o pessoal daqui me conheceu e há diversas similaridades entre os dois universos. Ano passado, com a crise, me procuraram para dinamizar o movimento de Natal, com a ressalva: algo bem barato, pois não há dinheiro. Buscando motivação em alguma tradição local, alguém recordou da história de Santa Luzia. Como luterano, sem informação sobre ela, fiquei boiando.

Então, eles me esclareceram. Santa Luzia, a Santa Lúcia dos italianos, é semelhante a São Nicolau, Santa Klaus, até mesmo Papai Noel. Na noite de Natal, ela visita a casa de todo mundo, para ver se as crianças estão bem. E viaja cavalgando seu burrinho. Assim, antes de ir para a cama, as crianças deixavam na entrada da casa um pratinho cheio de capim, para o burrinho da Santa Luzia se alimentar, enquanto ela olha pelos pequenos.

Na saída, Santa Luzia, em agradecimento ao gesto generoso das crianças, enchia aquele pratinho de biscoitinhos decorados com motivos de Natal. Na manhã do dia de Natal, ao acordar, a primeira coisa que as crianças faziam era correr para fora de casa, ver se a Santa Luzia tinha deixado as guloseimas para elas. Uma tradição linda! Falei: “Vamos recuperar isso, e fazer as pessoas virem até aqui para comprar biscoitos de Santa Luzia.”

Um grupo de doceiras agarrou a ideia. Uma parceria entre a Igreja local e o Sebrae-SC desenvolveu oficinas para qualificar mais interessados em produzir bolachinhas e doces. A criançada também se juntou aos grupos, garantindo mais ainda a recuperação desta tradição. Ao mesmo tempo, bolamos uma marca simples e fizemos cartazes, camisetas e aventais para atendentes das lojas. A comunidade começou a divulgar nas redes sociais.

E a turma começou a produzir e decorar os biscoitinhos. Não deu outra! Nos finais de semana antes do Natal, famílias foram lá comprar os biscoitinhos de Santa Luzia. Bem, depois de vencer essa primeira etapa, o desafio para os empreendedores locais é dar continuidade. Todo final de ano, usar os finais de semana antecedentes ao Natal para atrair famílias até à Cidade de Nova Trento para comprar lembranças de Santa Luzia.

Ou seja: uma tradição há muito esquecida, recuperada e bem trabalhada, pode resultar em incremento de negócios numa determinada situação. Estava tudo parado, marasmo total e, de repente, houve um crescimento bem legal. O turismo impacta diretamente cerca de 70 atividades. Então, a grosso modo, podemos afirmar que cada Real novo que entrou ali naquele período ajudou a gerar 70 novos Reais ao longo dos dias seguintes.

 

Estado do Espírito Santo desenvolve projeto para alavancar de vez seu Turismo Religioso

Nos finais de semana antes do Natal, famílias viajavam até à Cidade de Nova Trento, para comprar biscoitinhos de Santa Luzia. O desafio é dar continuidade. Todo final de ano, atrair turistas para comprar lembranças, permanecendo pelo menos uma noite

 

Empreendedores precisam ganhar dinheiro

 

Aliás, quem sabe podemos fazer alguma coisa relacionada a Santa Luzia por aqui. Soube que a edificação mais antiga do Município de Vitória é uma capelinha linda, dedicada a Santa Luzia. Ela fica na Cidade Alta, bem próxima da Catedral. Também descobri aqui no Município de Vila Velha uma paróquia de Santa Luzia, situada na Praia do Ribeira, bem próxima ao Farol de Santa Luzia. Olha quanta oportunidade aí!

O projeto é desenvolvido em etapas. Começa com a sensibilização dos religiosos e dos empreendedores. Depois, cria-se um grupo para coordenar as ações. Em seguida, a fase da roteirização. Aí, parte-se para consultoria individualizada aos participantes. Junto, faz-se a formatação de produtos e roteiros turísticos. Há, ainda, criação do Calendário de Eventos. Finalmente, o planejamento de ações futuras e a previsão para ampliação.

O lançamento ocorre em várias frentes: famtours para agentes e operadores, press trip para a imprensa, distribuição de material de promoção e até mesmo publicidade nos meios de comunicação, havendo verba. É importante criar um bombardeio forte no início, e mantê-lo ao longo do tempo, principalmente nas redes sociais. Elas são a nova forma do antigo boca-a-boca, com um turista contando suas experiências para os outros.

Em resumo, a proposta para o Estado do Espírito Santo resume-se a trabalhar o Turismo Religioso na sua essência, sendo viés do Turismo Cultural, porque o São José de Anchieta nos permite essa união. Focar intensamente nos empreendimentos já atuantes no setor, além de agregar novos. Usar o que já existe e acrescentar coisas simples, aproveitando as tradições, os costumes locais. E criar as condições de gerar, pelo menos, um pernoite.

Para finalizar, três pontos fundamentais. Primeiro: turismo só funciona se os envolvidos ganharem dinheiro. Ninguém vai ficar pagando para receber visitantes num hotel, loja, restaurante. É preciso apoiar os empreendedores. Eles têm de estar em todo material de divulgação, mesmo produzidos pelo Poder Público. Os gestores dizem não: “Eles visam lucro. ” Claro que visam, como os Municípios, Estados e País visam arrecadar impostos.

A segunda é remuneração. Todo mundo que vender tem de receber comissão, e não só as agências. Hotel vendeu? Ganha. Guia vendeu? Ganha. Quiosque, bar, restaurante, motorista de táxi…. Não importa! Não é “alguém vende”. É “nós vendemos”. Governo, Igreja e Sebrae não se envolvem em vendas, só organizam, incentivam, promovem. A comercialização é trabalho de formiguinha, de todos os envolvidos, seja ele quem for.

E, finalmente, já que estamos falando de turismo religioso, precisamos trabalhar e orar muito para milagres acontecerem. Aqui, apresentei ideias. Muitas são viáveis, outras não, algumas serão deixadas para depois. Decisões quanto a isso serão sempre tomadas não por mim, mas em conjunto pelos gestores dos patrimônios religiosos, consultores do Sebrae-ES e, principalmente, os responsáveis pelos empreendimentos participantes.

 

Estado do Espírito Santo desenvolve projeto para alavancar de vez seu Turismo Religioso

Outro aspecto importante: remuneração. Todo mundo que vender recebe comissão, não só agências. Hotel vendeu? Ganha. Guia vendeu? Ganha. Quiosque, bar, restaurante, motorista de táxi…. Não importa! Não é “alguém vende”. É “nós vendemos”. Sempre

 


 

Clique sobre os trechos em colorido ao longo do texto para abrir novas guias, trazendo informações complementares ao aqui sendo tratado. Eles guardam links levando para verbetes da Wikipedia e sites de empresas, entidades, Governos estaduais, Prefeituras etc.

A repetição do termos  é intencional. São palavras-chave do conteúdo. Colocá-los diversas vezes é parte das técnicas de Search Engine Optimization — SEO, a otimização para ferramentas de busca, destacando o trabalho quando se pesquisa como BingGoogle ou Yahoo.

Nos meus textos de divulgação de turismo, ao citar uma cidade, faço em conjunto com seus apelidos. Por isso Cidade Canela Verde de Vila Velha e Cidade Ilha do Mel de Florianópolis. E, também, Estado do Espírito Belo e Santo e Estado de Santa e Bela Catarina.

Material publicado originalmente pelo Jornal de Turismo & Serviço, conforme pode ser verificado nos links a seguir: