O empreendedor Marco Azevedo está à frente de três grandes investimentos na zona rural do Município de Guarapari, cidade turística do litoral Sul do Estado do Espírito Santo. Nesta entrevista, conta um pouco da sua rica trajetória de vida, mostrando como passou de engenheiro a hoteleiro com a construção do primeiro hotel-fazenda em território capixaba, o Hotel Flamboyant. Pioneirismo repetido com o primeiro parque temático: Acquamania.

 Agora voltado apenas à gestão de seus negócios, durante mais de 10 anos esteve à frente de entidades importantes do setor, inclusive como membro do Conselho Nacional de Turismo. Numa conversa informal de cerca de duas horas, sempre bem-humorado, Marco Azevedo revelou gosto pessoal interessante: sanduíche de pão integral com banana da terra cozida. Aproveitei para experimentar esta combinação e posso garantir que é bem interessante.

 Ao final, durante passeio de uma hora pelas instalações do Acquamania, naquele dia de Sol abarrotadas de frequentadores, a todo momento se abaixava para apanhar copos, garrafas, guardanapos e outros itens largados pelo chão, colocando-os nas muitas lixeiras ao redor das áreas de recreação. E revelou: “Tenha certeza: Michael Eisner, ex-executivo da Disney, fazia o mesmo quando circulava pelos ambientes dos parques em Orlando.”

 

Formado como engenheiro, acaba como hoteleiro

 

Me formei em Engenharia Civil e fui trabalhar na Encol, incorporadora imobiliária presente em vários Estados do Brasil, inclusive no Estado do Espírito Santo. Isso, nos anos 1980, um período de crises constantes, conhecido como a “Década Perdida”. Meu pai achava que eu estava perdendo tempo lá. Ganhava pouco e as perspectivas não eram boas. Não sei se ele era visionário, mas a Encol acabou falindo, deixando obras inacabadas em diversas cidades.

Meu pai me convidava para trabalhar com ele. Eu respondia: “O que vou fazer lá. Vocês são advogados, sou engenheiro.” Ele rebatia: “Vamos fazer um loteamento naquela área que temos próximo à cidade de Guarapari.” Aceitei e dei início ao processo, registrando tudo certinho, na Prefeitura. O lugar onde estão o Hotel Flamboyant, o Hotel Acquamarine e o Parque Temático Acquamania, na verdade, era parte de um loteamento feito pela gente.

 

De engenheiro a hoteleiro, a rica trajetória do empreendedor capixaba Marco Azevedo

Meu pai me convidava para trabalhar com ele. Eu respondia: “O que vou fazer lá. Vocês são advogados, sou engenheiro.” Ele rebatia: “Vamos fazer um loteamento naquela área que temos próximo à cidade de Guarapari

 

Hotel-fazenda: ideia da mãe, inclusive o nome

 

Estava cuidando do loteamento e minha mãe veio com a ideia de fazer um hotel-fazenda. Ela já tinha até o nome: Flamboyant. Era a cara dela. O flamboyant é uma planta radiosa. Ela até falava para as pessoas que vinham comprar lote sobre isso, mas eu não acreditava muito naquilo. Nisso, me ofereceram a oportunidade de comprar metade de uma empresa de proteína animal, a Duboi. Era de um cliente do escritório de advocacia do meu pai.

Deixei meu pai e meus irmãos e fui trabalhar lá. E estava ganhando dinheiro. O suficiente para ir ao exterior pela primeira vez. Viajei para Paris. Era 1986, casado recente, verdadeira Lua de Mel. Estava passeando e recebo um telefonema de meu pai: “Seu sócio vendeu a parte dele.” Eu não dei bola: “Vendeu a parte dele. Eu não quero vender a minha.” Meu pai insistiu: “Não cria problemas. Aproveita esta oportunidade. Vende a sua.” Então, vendi.

 

De engenheiro a hoteleiro, a rica trajetória do empreendedor capixaba Marco Azevedo

Estava cuidando do loteamento e minha mãe veio com a ideia de fazer um hotel-fazenda. Ela já tinha até o nome: Flamboyant. Era a cara dela. O flamboyant é uma planta radiosa

 

Sonho: construir casas populares com sustentabilidade

 

Encantado com aquela história do presidente José Sarney, de investir em moradia popular, com o dinheiro que recebi, comprei uma usina de solo cimento. Era aquele sonho de fazer uma coisa ecologicamente correta. O solo cimento não precisa de queima, é limpinho etc. Montei a fábrica no bairro de Novo México, na cidade de Vila Velha, para aproveitar o boom de casas populares. A Caixa Econômica Federal não liberou meus financiamentos.

Capital imobilizado, fábrica parada, não sabia o que fazer. Meu irmão então me chamou: “Vem fazer nosso hotel.” Eu fui. A primeira providência: conseguir o financiamento no Banco de Desenvolvimento Econômico do Espírito Santo, o Bandes. E os técnicos me receberam muito bem: Maria José Tabachi, William Galvão… Aquela turma das antigas. Expliquei nossas intenções, gostaram, e me pediram um Projeto de Viabilidade Econômica.

 

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Capital imobilizado, fábrica parada, não sabia o que fazer. Meu irmão então me chamou: “Vem fazer nosso hotel”

 

Júlio Pinho e cópia do projeto da Pousada dos Pinhos

 

Nunca tinha feito um, mas, como sabia trabalhar com números, pedi a cópia de um para seguir o roteiro. Eles, como funcionários da instituição, não poderiam fazer isso. Mas me indicaram uma pessoa capaz de me ajudar. Era o senhor Júlio Pinho, que tinha acabado de inaugurar sua Pousada dos Pinhos, lá em Pedra Azul. Ele fez o primeiro hotel de lazer do Estado fora da praia. Inclusive, eu tinha passado minha Lua de Mel lá na pousada deles.

Ele não só me deu cópia do projeto como me ajudou muito, com orientações que sigo até hoje. Realmente, um grande amigo. Lembro-me dele falando, com sotaque português: “Aparece um monte de gente dando ideia. Eu pergunto: ‘O que foi que você já fez?’ Não fez nada. Então, digo: ‘Olha, não fez, então não dá palpite.’” Fui muito bem recebido por ele, que abriu a Pousada, mostrou detalhes da construção e me explicou sobre a operação.

 

De engenheiro a hoteleiro, a rica trajetória do empreendedor capixaba Marco Azevedo

O senhor Júlio Pinho tinha acabado de inaugurar sua Pousada dos Pinhos, lá em Pedra Azul. Ele fez o primeiro hotel de lazer do Estado fora da praia. Ele me deu uma cópia do Projeto de Viabilidade Econômica

 

Contas com calculadora HP definem 42 apartamentos

 

Meu irmão queira fazer 30 apartamentos. Eu ali fazendo conta com HP, tudo à mão. Não dava certo. O hotel não era viável com 30. Fui acrescendo unidades e cheguei a 40. Dava para pagar todas as contas e um salário, em dinheiro de hoje, de uns R$ 2.000,00 para um gerente. Mas, para ajeitar a arquitetura, fiz 42. E usei a usina de solo-cimento para construir o primeiro hotel ecológico do Estado do Espirito Santo. Nem se falava nisso naquela época.

A construção do Flamboyant é única. Tem um monte de arcos. Foi bem difícil achar mão de obra para fazer aquilo. Aliás, os arquitetos do nosso projeto são os mesmos do Hotel Praia Sol, lá de Nova Almeida, bairro do Município da Serra, no litoral Norte do Estado do Espírito Santo: Giovana Biancucci e Paulo Vargas. Depois, Ândrea Aroso, superou a gente em detalhes. Ela, formada em Direito, foi quem bolou aquele visual do Aroso Paço Hotel.

 

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Ândrea Aroso superou a gente em detalhes. Ela, formada em Direito, foi quem bolou aquele visual do Aroso Paço Hotel

 

Outro português ajudou bastante: o mestre de obras

 

O mestre de obras que trouxe para cá era português. Eu o conhecia. Já tinha trabalhado para mim. Ele tinha esse conhecimento, podemos dizer, vindo da Idade Média. Não era simples, de fazer bases, erguer colunas, concretar vigas, montar lajes, fechar paredes com tijolos. É coisa de escultor, quase arte de cantaria. Os arcos são montados sobre estruturas provisórias de madeira. Quando estas são retiradas, se não estiver bem-feito, desaba. Isso não ocorreu!

Nem bem tínhamos acabado a obra, aparece aqui João Dalmácio, na época à frente dos dois Porto do Sol, de Guarapari e de Vitória. Ele chegou acompanhado do franqueador da Best Western. Depois de visitar tudo, este executivo vira para meu pai e diz: “Olha! Seus filhos são doidos. Não vai aparecer ninguém aqui. Vende tudo, paga o financiamento e esquece.” Era até uma visão correta, a partir do conhecimento do negócio de hotel que ele detinha.

 

De engenheiro a hoteleiro, a rica trajetória do empreendedor capixaba Marco Azevedo

Construir o Hotel Flamboyant não era simples, de fazer bases, erguer colunas, concretar vigas, montar lajes, fechar paredes com tijolos. É coisa de escultor, quase arte de cantaria. Os arcos são montados sobre estruturas provisórias de madeira. Quando estas são retiradas, se não estiver bem-feito, desaba. Isso não ocorreu!

 

Beleza da construção contrastava com feiura da região

 

Acho que o amigo do João Dalmácio ficou mal impressionado porque aqui era muito feio. Era um deserto tomado por capim braquiária e capim gordura. Só pasto. Não tinha árvore. Não havia bicho, pássaros. Hoje, aparece tudo. Renato de Jesus, engenheiro florestal da Reserva da Vale, no Município de Sooretama, lá no Norte do Estado do Espírito Santo, fez um projeto de recuperação ambiental. E nós o seguimos fielmente, transformando a região.

Quanto a este negócio de proteção ao meio ambiente, um detalhe importante: quando pai comprou a terra, lá em 1976, ele já trouxe alguns princípios. Por exemplo, de proteção à mata ciliar. Isso ajudou um pouco. Mas o trabalho do Renato foi fundamental. Lembro que a recuperação da mata do entorno do Convento da Penha foi ele que fez. Ele é bem prático, já ganhou diversos prêmios. Não é daqueles xiitas. Faz as adaptações necessárias, possíveis.

 

De engenheiro a hoteleiro, a rica trajetória do empreendedor capixaba Marco Azevedo

Aqui era muito feio. Era um deserto tomado por capim braquiária e capim gordura. Só pasto. Não tinha árvore. Não havia bicho, pássaros. Mais ou menos como se vê acima e à direita na imagem

 

Investimento, paciência, trabalho: vegetação volta

 

O Renato não é daqueles que impedem a derrubada de uma árvore. Se precisar, derruba. Ele justifica: “A gente planta mais duas, três, 10…” Ele tem esta visão de que o meio ambiente também precisa estar a serviço do homem. Ele não é como Augusto Ruschi, não se formou em Biologia. Tem gente que o critica muito por isso. Eu o elogio. O resultado do trabalho que fez para a gente, 25 anos depois, é elogiado por todos os hóspedes dos nossos hotéis.

Nosso hotel entrou em operação e desde o primeiro dia foi um sucesso. Eu tive de trabalhar de garçom. Aliás, na hora em que entrou o primeiro hóspede eu morri de vergonha. Pode até não parecer, mas sou tímido. Em me escondi. Não sabia como receber. Outra coisa bem importante: um dos principais clientes nossos, no início, foi Bancorbrás. Fechamos um acordo com eles sem eu acreditar e, no primeiro ano, já me encheram o hotel de gente.

 

De engenheiro a hoteleiro, a rica trajetória do empreendedor capixaba Marco Azevedo

Renato de Jesus, engenheiro florestal da Reserva da Vale, no Município de Sooretama, lá no Norte do Estado do Espírito Santo, fez um projeto de recuperação ambiental. E nós o seguimos fielmente, transformando a região

 

Bancorbrás parceira desde primeiros momentos

 

Aliás, vocês têm ideia de quantas diárias a Bancorbrás compra no Espírito Santo por ano hoje em dia? 20 mil! Nenhuma operadora chega a duas mil. Outra coisa: deste total, uns 10% são clientes aqui do Estado. Os outros 90% vêm de outros Estados do País. Levei uma técnica da Secretaria de Turismo ao estande deles no Festival de Turismo de Gramado do ano passado e ela comprovou estas estatísticas. Imprimiram relatórios com estes números.

No Governo Albuíno Azeredo, apareceu Paulo Augusto Vivacqua. Ele, oriundo da então Companhia Vale do Rio Doce — assim como o governador —, e acostumado a trabalhar com planejamento, resolveu fazer um projeto para o turismo do Estado do Espírito Santo. Quem eram considerados os papas em planejamento de turismo no mundo naquela época? Os catalães. Não demorou muito, vieram e apresentaram um estudo muito bem-acabado.

 

De engenheiro a hoteleiro, a rica trajetória do empreendedor capixaba Marco Azevedo

Quem eram considerados os papas em planejamento de turismo no mundo naquela época? Os catalães. Não demorou muito, vieram e apresentaram um estudo muito bem-acabado

 

Herança dos catalães? Formação do Mário Petrocchi

 

Aliás, essa experiência deixou como herança um técnico local hoje bastante conceituado tanto no Brasil quanto até fora dele: Mário Petrocchi. Engenheiro, executivo da Escelsa, acostumado a pensar de forma organizada, transformou a experiência do contato com os catalães, de fazer a interface da equipe de Governo com eles, numa de pós-graduação em planejamento de turismo. Em minha opinião, foi o melhor resultado daquela experiência.

O plano deixado pelos espanhóis era uma espécie de canto de sereia. “Vamos investir um milhão de dólares por ano na divulgação do Estado. Vamos fazer marinas, isso, aquilo…” O Paulo Augusto me colocou como membro do Conselho Estadual de Turismo. Eu, um nada! Os outros, somente empresários de ponta: Américo Buaiz, Camilo Cola, Jônice Tristão… Só top. Eu, novato, no meio daquelas feras. Ainda bem que o Américo Buaiz me “adotou”.

 

De engenheiro a hoteleiro, a rica trajetória do empreendedor capixaba Marco Azevedo

Essa experiência dos catalães deixou como herança um técnico local hoje bastante conceituado tanto no Brasil quanto até fora dele: Mário Petrocchi. Engenheiro, executivo da Escelsa, acostumado a pensar de forma organizada, transformou a experiência do contato com os espanhóis, de fazer a interface da equipe de Governo com eles, numa de pós-graduação em planejamento de turismo. Em minha opinião, foi o melhor resultado daquela experiência

 

Um canto de sereia: construir um parque temático

 

Dentro do Conselho, o Paulo Augusto me hipnotiza com novo sonho: parque temático. “Construir ao lado do seu hotel. O lugar é perfeito. Vamos fazer aquele asfalto.” Aliás, o asfalto está no projeto do Acquamania. E lá fui eu ver parques nos Estados Unidos e na Europa. Visitei parques aquáticos de Espanha e Portugal. Era o ano de 1992. Voltei todo animado. Vou fazer. Mas não havia tecnologia no Brasil para este tipo de empreendimento.

O Beach Park, naquela época, tinha rio lento e toboáquas. Tinham começado há seis anos, mas da forma correta. Começaram com restaurante, foram atraindo público e acrescentando atrações. O negócio foi crescendo assim. Não tinham piscina de onda. Achei um italiano que tinha feito uma em Brasília e outra em Manaus. Ele orientou para comprar uma patente. Procura daqui, procura dali, adquiri dos alemães. Fizemos aqui usando tecnologia deles.

 

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O Beach Park, naquela época, tinha rio lento e toboáquas. Tinham começado há seis anos, mas da forma correta. Começaram com restaurante, foram atraindo público e acrescentando atrações. O negócio foi crescendo assim. Não tinham piscina de onda

 

Acquamania pronto e ampliação do Flamboyant

 

Uma curiosidade: o sistema que faz ondas foi criado para testar cascos de navios dentro de diques cheios de água. Ou seja: uma piscina! Assim, viram que poderiam usar a técnica fora do ambiente da Engenharia Naval. E é bem simples: um dos lados da piscina tem duas câmaras fechadas, nas quais a água penetra por uma fenda, no fundo. Compressores fortes bombeiam ar por cima, empurrando a água para fora. O volume que sai cria o movimento.

Construindo o Acquamania, me filiei a uma associação internacional de parques temáticos. Em 1993, fui pela primeira vez a uma feira especializada nos Estados Unidos. Estava a mil por hora. O financiamento tinha carência de 24 meses, acabei as obras antes. Mas perdi o verão. Também ampliamos o Flamboyant para 66 apartamentos. Vinha dando resultado, apareceu demanda para treinamentos corporativos. Acreditamos e, então, investimos mais.

 

De engenheiro a hoteleiro, a rica trajetória do empreendedor capixaba Marco Azevedo

o sistema que faz ondas foi criado para testar cascos de navios dentro de diques cheios de água. Ou seja: uma piscina! Assim, viram que poderiam usar a técnica fora do ambiente da Engenharia Naval. E é bem simples: um dos lados da piscina tem duas câmaras fechadas, nas quais a água penetra por uma fenda, no fundo. Compressores fortes bombeiam ar por cima, empurrando a água para fora. O volume que sai cria o movimento

 

Concorrência, redução das férias, crises…

 

Outro ponto em que fomos pioneiros no Estado do Espírito Santo é que já nascemos dentro de conceito de acessibilidade. Os empreendimentos têm unidades adaptadas. Pessoas com necessidades especiais podem se deslocar com facilidade para todos os pontos, tanto do Acquamania quanto do Flamboyant. Infelizmente, ainda existem alguns brinquedos para os quais não encontramos uma solução de acesso. Assim que ela aparecer, será implementada.

Mas, tudo pronto e começa a aparecer um problema em seguida a outro. Vem o Thermas, com a proposta de clube. Não fizemos o Acquamania para vender título. E, mais: crise do México, redução do período de férias escolares, privatização da Rodovia do Sol. A gente acreditava tanto na melhoria da estrada, criaram praça de pedágio entre nós e nosso maior emissor, os Municípios da Região Metropolitana da Grande Vitória. Atrapalhou bastante.

 

De engenheiro a hoteleiro, a rica trajetória do empreendedor capixaba Marco Azevedo

Privatização da Rodovia do Sol. A gente acreditava tanto na melhoria da estrada, criaram praça de pedágio entre nós e nosso maior emissor, os Municípios da Região Metropolitana da Grande Vitória. Atrapalhou bastante

 

Promessa do asfaltamento deixa de ser cumprida

 

O Governo Albuíno chega ao fim e nada de asfalto. Fui conversar com o sucessor, Vítor Buaiz. Ele tinha dito: “Empresário de turismo só quer incentivo fiscal e propaganda de graça.” E ouvi: “Você quer estrada? Procura o Albuíno.” O asfalto até à BR 101, três quilômetros, nós fizemos. Daqui à Rodovia do Sol, seis quilômetros de chão, não é aquela tragédia, mas poderia ser melhor. Afinal, nosso turista, essencialmente, chega de carro.

Infelizmente, o trecho não pode entrar nos asfaltamentos do Caminhos do Campo, apesar da região ter produção leiteira, haras e alambiques. E havia outro entrave. A administradora a Rodovia do Sol, a RodoSol, era contra, por facilitar o uso da concessão sem pagamento. A pessoa viria do Norte pela BR 101 até Amarelos, pegava esta variante, que é a ES 477, entrava na Rodovia do Sol e ia embora, sem custos. Agora, tem pedágio também na 101.

 

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o trecho não pode entrar nos asfaltamentos do Caminhos do Campo, apesar da região ter produção leiteira, haras e alambiques. E havia outro entrave. A administradora a Rodovia do Sol, a RodoSol, era contra, por facilitar o uso da concessão sem pagamento

 

Governo atual garante que vai fazer a pavimentação

 

Em nova conversação com o Governo do Estado, está apalavrado de a obra sair. Confio que, depois de 25 anos, a estrada seja asfaltada. Aliás, fui conversar com o Paulo Ruy, secretário de Transportes e Obras Públicas. Ele me perguntou: “O que você fez de errado? Como, até hoje, não conseguiu este asfalto?” Resolvido isso, vamos incrementar os eventos para a baixa temporada, dentro de parâmetros, para não repetirmos as experiências ruins.

Fizemos aqui alguns shows. Um, importante, foi o Sun Set, de música eletrônica. Vi que o risco é muito alto. Um cara saiu nu de dentro do parque, correndo pelo estacionamento. Se uma figura dessa morre, não morre no Sun Set. E sim no Acquamania. Então, resolvi não arriscar mais com isso. De música, agora, só evangélico. Focaremos em esporte. Temos 10 quadras de tênis. Já recebemos um Brasileiro de Veteranos desta modalidade. Um sucesso!

 

De engenheiro a hoteleiro, a rica trajetória do empreendedor capixaba Marco Azevedo

Fizemos aqui alguns shows. Um, importante, foi o Sun Set, de música eletrônica. Vi que o risco é muito alto. Então, resolvi não arriscar mais com isso. De música, agora, só evangélico. Focaremos em esporte. Temos 10 quadras de tênis. Já recebemos um Brasileiro de Veteranos desta modalidade. Um sucesso!

 

Outra frente: dinamizar esportes de aventura

 

Até agora, é uma luta dura. O verão tem de resolver o ano todo. Para driblar a sazonalidade, no Flamboyant, buscamos treinamentos, imersões. A gente consegue levar. Entretenimento é complicado. Tem frio, intempéries. A capacidade de atendimento do Acquamania é de três mil pessoas. Chove, ninguém aparece. Num domingo de Sol no verão, faturamos mais que abril, ou maio, ou junho, inteiro. A saída? Dinamizar a estrutura dos esportes de aventura.

Temos a maior tirolesa do Estado do Espírito Santo. São três segmentos, uma com 1.000 metros de comprimento. Vamos implantar circuito de quadriciclo. Tínhamos arvorismo, citado até na revista Veja. Tivemos rapel. Podemos voltar com tudo. O Flamboyant é o melhor hotel para crianças de Região Sudeste do Brasil. A equipe de recreação de lá é fantástica. Nessa área, é imbatível. Não sou eu falando. Entra no TripAdvisor para ver.

 

De engenheiro a hoteleiro, a rica trajetória do empreendedor capixaba Marco Azevedo

Temos a maior tirolesa do Estado do Espírito Santo. São três segmentos, uma com 1.000 metros de comprimento. Vamos implantar circuito de quadriciclo. Tínhamos arvorismo, citado até na revista Veja. Tivemos rapel. Podemos voltar com tudo

 

Atraso de pelo menos uns 10 anos no crescimento

 

Em 2015, no Flamboyant, inauguramos 30 apartamentos padrão quatro estrelas, somando agora 114 unidades. O Acquamarine tem 40 — mas o projeto era ter 300. Estamos uns 10 anos do que poderíamos ter aqui. Os novos investimentos também são robustos. Melhor qualificação da estrutura e aprimoramento do pessoal. Geramos 200 empregos diretos, 90% aqui da nossa região. É bom lembrar: nestes 25 anos, nunca atrasamos Folha de Pagamento.

O Acquamarine, mais novo, completando 12 anos, tem um conceito de vila. São casinhas, com apartamentos quádruplos. É complemento do parque. Usa o Acquamania como lazer. Outra diferença: seu hóspede sai muito. No Flamboyant é diferente, tipo resort: entra e fica. Mas trabalhamos vendendo a região: passeio de escuna, cinema no shopping, excursão para a região de montanhas, visita ao Convento da Penha, Museu Ferroviário e assim por diante.

 

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O Acquamarine, mais novo, completando 12 anos, tem um conceito de vila. São casinhas, com apartamentos quádruplos. É complemento do parque. Usa o Acquamania como lazer

 

Mais investimentos, novos empreendimentos

 

Em andamento, o Porto Aventura, criando, na área de entrada do Acquamania, um novo empreendimento, separado. Começa com restaurante para até 250 pessoas, já em obras, e atrações não envolvendo água. Temos, já montado, um playground seco — acho que é o maior do Estado. Estamos preparando jardim sensorial, para trabalhar com escolas, e outros pontos na área de alimentos, como cafeteria, sorveteria. Haverá também lojinhas diversas.

Vamos ter também área coberta com 1.200 metros quadrados, com anfiteatro, ideal para ações corporativas, festas descoladas, coisas assim. Por que isso? Não dá para depender só do turismo. Então, focamos no entorno, tanto em Guarapari como Grande Vitória. A pessoa pode vir aqui apenas para almoçar, passear, participar de alguma coisa. Não será necessário comprar ingresso para apenas usar um dos restaurantes existentes dentro do Acquamania.

 

De engenheiro a hoteleiro, a rica trajetória do empreendedor capixaba Marco Azevedo

No Flamboyant é tipo resort: entra e fica. Mas trabalhamos vendendo a região: passeio de escuna, cinema no shopping, excursão para a região de montanhas, visita ao Convento da Penha, Museu Ferroviário e assim por diante

 

Condomínio fechado e hotel de padrão diferenciado

 

Tem mais uma coisa importante: concluída a estrada, vamos lançar condomínio fechado, com novo hotel. Será um retorno às origens: loteamento, mas de padrão elevado. Usaremos parte dos 2,5 milhões de metros quadrados da fazenda. O Flamboyant já ocupa 500 mil; o Acquamania e Acquamarine, 200 mil. Decidimos assim porque já estamos no negócio. Na ponta do lápis, para começar agora, não valeria a pena. Empreender no Brasil é uma furada.

Falta um turismo no Estado do Espírito Santo que justifique este tipo de empreendimento. Se não tivéssemos nossos dois hotéis, mais o parque, o caminho seria outro. As incertezas são muitas. O Governo, em vez de ajudar, atrapalha. Burocracia por todo lado. Impostos elevados, com formas de recolhimento kafkianas. Como tudo muda o tempo todo, toda hora se está ilegal de algum modo: meio ambiente, leis trabalhistas, saúde pública. Uma tortura!

 

De engenheiro a hoteleiro, a rica trajetória do empreendedor capixaba Marco Azevedo

Tem mais uma coisa importante: concluída a estrada, vamos lançar condomínio fechado, com novo hotel. Será um retorno às origens: loteamento, mas de padrão elevado. Usaremos parte dos 2,5 milhões de metros quadrados da fazenda

 

Abrir parque temático? Não tem mercado

 

Mesmo com estas dificuldades, as pessoas querem se iludir. O cara vem aqui num domingo de Sol, vê o estacionamento lotado, brinquedos tomados de gente, e logo conclui: “Nossa! Isso é que é ganhar dinheiro.” Viesse no meio da semana, dia sem Sol. Muitos pensam em abrir parque temático. Eu aviso: “Não faz. Não tem mercado.” Acham que quero só para mim. Vejam: o Yahoo! fechou. Era maior que o Acquamania e ficava na Grande Vitória.

Passado todo este tempo, olhando para trás, concordo que devo muito ao Acquamania. Ele me transformou em pessoa importante, tanto aqui no Estado do Espírito Santo quanto fora dele. Primeiro, como já disse, me colocando no Conselho de Turismo do Estado do Espírito Santo, ao lado dos maiores empresários capixabas. Depois, como diretor da Associação Brasileira de Parques Temáticos, a Adibra. Isso projetou meu nome em termos de Brasil.

 

De engenheiro a hoteleiro, a rica trajetória do empreendedor capixaba Marco Azevedo

Mesmo com estas dificuldades, as pessoas querem se iludir. O cara vem aqui num domingo de Sol, vê o estacionamento lotado, brinquedos tomados de gente, e logo conclui: “Nossa! Isso é que é ganhar dinheiro.” Viesse no meio da semana, dia sem Sol. Muitos pensam em abrir parque temático. Eu aviso: “Não faz. Não tem mercado.”

 

Seis anos no Conselho Nacional de Turismo

 

Passei a representar os parques temáticos no Conselho Nacional de Turismo. Isso, durante quatro últimos anos do Governo Fernando Henrique Cardoso e dois do primeiro Governo Lula. E, pasmem! Na Administração FHC, chegamos a ter três representantes do turismo do Espírito Santo no alto escalão nacional: Élcio Álvares, como ministro; Rose de Freitas, como diretora da Embratur; e este aqui que vos fala. Nunca antes na história deste Estado

No FHC, zero de recursos para turismo. Quando havia, beneficiava somente Bahia, Ceará, Rio de Janeiro, Santa Catarina e São Paulo. De vez em quando, Luzia Toledo trazia alguma coisa; Rose de Freitas, também. Lula entrou, nomeou Eduardo Sanovickz como presidente da Embratur. Aproveitei a proximidade e o convidei para vir ao Estado do Espírito Santo, conhecer o Acquamania e Flamboyant. Veio, viu e voltou animado com nossos potenciais.

 

De engenheiro a hoteleiro, a rica trajetória do empreendedor capixaba Marco Azevedo

Na Administração FHC, chegamos a ter três representantes do turismo do Espírito Santo no alto escalão nacional: Élcio Álvares, como ministro [agora, deputado estadual]; Rose de Freitas, como diretora da Embratur [hoje, senadora]; e este aqui que vos fala

Da animação à depressão em muito pouco tempo

 

Minha impressão do Eduardo Sanovickz era a melhor possível: formado na Catalunha, conhecia o trabalho dos espanhóis para nós, Planejamento Estratégico… Pensei: “Vai dar certo!” Estabeleceu meta: de 2004 a 2009, em cinco anos, o Brasil iria saltar de 5,3 milhões para, aproximadamente, 10 milhões de turistas. Dobrar. Nunca antes na história deste País… Como disse recentemente o ministro Jacques Wagner outro dia, “o pessoal se lambuzou”.

Estruturaram escritórios de representação do País no exterior. Eduardo Sanovickz imaginou ocupá-los com técnicos. Foi só os políticos descobrirem para isso mudar. Na época, eu era diretor da Federação Brasileira dos Conventions & Visitors Bureaux. Começaram a surgir projetos endereçados. Vinham de cima para baixo, totalmente fora das realidades vividas por nós. Para fazer alguma coisa, casávamos nossas necessidades com as demandas deles.

 

De engenheiro a hoteleiro, a rica trajetória do empreendedor capixaba Marco Azevedo

Minha impressão do Eduardo Sanovickz era a melhor possível: formado na Catalunha, conhecia o trabalho dos espanhóis para nós, Planejamento Estratégico… Pensei: “Vai dar certo!” Estabeleceu meta: de 2004 a 2009, em cinco anos, o Brasil iria saltar de 5,3 milhões para, aproximadamente, 10 milhões de turistas

 

Muita pressão e risco para o patrimônio pessoal

 

Não sei como aguentei tanto tempo aquela pressão toda. Muita gente entendia que, quando o recurso vindo do Governo entrava na Federação, ou no Convention, virava privado. Não é assim! Continua público. Tinha de comprovar o uso correto. Como era coisa orientada por político, havia fornecedor recusando-se a emitir Nota Fiscal. Ficava entre a cruz e a espada. Meu patrimônio responderia pelo que o Tribunal de Contas da União considerasse desvio.

Já dei uma boa contribuição para a atividade em si. Fui presidente da Seccional Estado do Espírito Santo da Associação Brasileira de Indústria de Hotéis; presidente do Espírito Santo Convention & Visitors Bureau; membro do Conselho Estadual de Turismo. Mas me sinto como naquela canção famosa do Fagner: “Não acredito mais no sonho intenso das paixões. São tantas as ilusões perdidas.” Cara, olha quanta coisa a gente construiu! O que tem hoje?

 

De engenheiro a hoteleiro, a rica trajetória do empreendedor capixaba Marco Azevedo

Já dei uma boa contribuição para a atividade em si. Fui presidente da Seccional Estado do Espírito Santo da Associação Brasileira de Indústria de Hotéis; presidente do Espírito Santo Convention & Visitors Bureau; membro do Conselho Estadual de Turismo

 

É hora de se promover Estado via meios virtuais

 

Vejo uma saída para a promoção do turismo do Estado do Espírito Santo: meio virtual. É a Internet, o ambiente Web, principalmente a partir dos dispositivos móveis. Esse negócio de montar estande em feira e distribuir papel acabou. Cada vez mais o turista decide sozinho, sem a intermediação de terceiros. Não adianta mais o Poder Público fazer mídia tradicional sem integrar o esforço às plataformas digitais de negócios montadas pelos empreendedores.

Outra coisa: perdemos muito por não trabalharmos melhor a parada de navios de cruzeiros. Passam aqui na frente o tempo. Mas temos de fazer em Guarapari, sem os custos do Porto de Vitória. Búzios, aqui perto, faz assim. Ilha Bela, em São Paulo, idem. O impacto para a economia de uma cidade pequena como a nossa é bem mais representativo do que acontece na capital. Seria também uma forma de ocuparmos o setor durante a enorme sazonalidade.

 

De engenheiro a hoteleiro, a rica trajetória do empreendedor capixaba Marco Azevedo

perdemos muito por não trabalharmos melhor a parada de navios de cruzeiros. Passam aqui na frente o tempo. Mas temos de fazer em Guarapari, sem os custos do Porto de Vitória. Búzios, aqui perto, faz assim. Ilha Bela, em São Paulo, idem. O impacto para a economia de uma cidade pequena como a nossa é bem mais representativo do que acontece na capital

 


 

Por João Zuccaratto, especial para o Jornal Turismo & Serviços. Publicada naquele veículo em duas partes, como pode ser conferido aqui.