Operação do Roteiro de Agroturismo Tour Linha Bella, no Município de Gramado, ressalta esforço de um casal de empreendedores. Passeio está transportando quase 4 mil pessoas por ano. Por incível que pareça, ações na Justiça e fora dela tentam impedir seu funcionamento.

 

Simplicidade, simpatia, carisma, liderança

 

Em post anterior, tive oportunidade de descrever o roteiro de agroturismo oferecido no Município de Gramado, denominado Tour Linha Bella. Conforme pode ser verificado naquele trabalho, o passeio é um mergulho na enorme herança deixada pelos imigrantes italianos durante o árduo esforço de colonização das terras íngremes da Serras Gaúchas. Isso, em termos de cultura, religiosidade, folclore, tradições e, principalmente, culinária.

Naquele momento, não havia espaço para trazer a público um detalhe extremamente importante: a identificação do real responsável pela criação, implantação, divulgação e manutenção da operação. E, tenham certeza, trata-se de uma pessoa ímpar, única. Uma personalidade que reúne bom humor constante, simpatia contagiante, falar simples de gente da roça, do mato mesmo, cativando a todos com carisma e muita naturalidade.

Entrou na jardineira na Praça das Etnias, ao lado da Rodoviária de Gramado, ponto de partida da bela viagem. Sem revelar a verdadeira identidade, apresentou-se como o guia de turismo a nos acompanhar na aventura. E mandou ver, trazendo curiosidades sobre as transformações da cidade e a rica história da região. Ao mesmo tempo, uma brincadeira com um passageiro aqui, outro ali, ganhando a todos em pouco mais do que 10 minutos.

 

Luciana e Antônio: casal unido, vencendo desafios

 

Nosso percurso foi modificado em relação ao normalmente oferecido aos turistas. Nossa primeira parada foi no Velho Casarão, e já ali ouvi elogios à atuação dele, chamando a atenção ser bem mais do que um simples guia. Isso se repetiu no Moinho Cavichion e na Ervateria Marcon. Depois de recepcionados com muita cantoria na Cantina Linha Bella, perguntei à assessora de Imprensa, Laura Galli, quem era realmente aquela figura.

Ela revelou a verdade já imaginada por mim: tratava-se do dono do Tour Linha Bella, o empreendedor que tornou o projeto uma realidade, vencendo todo tipo de desafios — inclusive alguns difíceis de acreditar, abordados mais adiante. Seu nome: Antônio Garcia da Rosa. Ao final do almoço, ele mesmo se apresentou ao grupo, ao lado da esposa, Luciana Cavichion da Rosa, e da equipe que os ajudam na Cantina Linha Bella.

Órfão de pai aos 12 anos, assim como seus outros irmãos maiores, deixou os estudos de lado, para trabalhar a ajudar a mãe a criar os irmãos menores. Educando-se na escola da vida, fez de tudo um pouco, na agricultura, comércio e indústria. No início da fase adulta, aproximou-se do turismo, como empregado do Gramado Palace Hotel, um empreendimento às margens da rodovia que une os Municípios de Canela e Gramado.

 

Da fábrica de massas falida ao roteiro de agroturismo

 

Quando começou a namorar com a Luciana, descendente dos italianos que desbravaram a região cruzada agora pela Linha Bella, descobriu que a família dela estava prestes a perder todo o patrimônio acumulado com sacrifício. Tinham investido numa fábrica de massas, o negócio andou para trás e o endividamento só com a Receita Federal atingia patamares impagáveis. Situação de assustar qualquer um, exceto o Antônio, é claro!

Assumindo um passivo que não era dele, entrou na sociedade e, com criatividade e trabalho, em pouco tempo estava tudo pago. Com a situação financeira saneada, partiu para ampliar a produção, melhorar os canais de venda e diversificar os negócios, para não ficar refém de um só. Conversando com a, agora, esposa, os dois tomaram a decisão de abrir uma cantina, lá mesmo junto à casa em que moravam, bem próximo à estrada.

Assim, em 4 de abril de 2009, era inaugurada a Cantina Linha Bella, para funcionar nas noites das sextas-feiras e sábados domingos para almoço e jantar. Mesmo sem o sucesso previsto, aos trancos e barrancos, chegaram até o final de 2012. Foi quando dois novos problemas vieram se somar aos já existentes: a mãe de Luciana, senhora Iria Cavichion, ficou seriamente doente e uma intimação judicial impedia o uso do nome Linha Bella.

 

Decisão tomada numa roda de chimarrão

 

Diante destes novos fatos, fecharam as portas até resolverem aquela situação. No dia 29 de janeiro de 2012, Luciana perdeu a mãe e Antônio uma sogra que considerava sua segunda mãe. Mesmo com a fábrica de massas indo bem e com algum recurso vindo da produção da propriedade rural em que viviam, a interrupção da operação da cantina gerava prejuízos. E o saldo negativo das contas crescia mês a mês, gerando novo perigo.

Já tinha passado da hora de reverter a maré negativa. Era o momento de se buscar algo novo, para dinamizar os negócios. Assim, em 6 de fevereiro — por sinal, dia de seu aniversário, Antônio acordou iluminado pela ideia de criar no vale um passeio igual aos outros sendo oferecidos no Município de Gramado: eram os roteiros Caminhos Linha Ávila, Criativo Várzea Serra Grande, O Quatrilho, Raízes Coloniais e Tour no Valle.

Enquanto tomava chimarrão com a esposa, debateu com ela o assunto e recebeu o apoio imediato. Sabedor de como a coisa funcionaria, precisava definir os pontos de parada. Entusiasmando as famílias proprietárias da Vinícola Masotti, Velho Casarão, Moinho Cavichion e Ervateria Marcon, definiu com cada uma a forma da apresentação a ser feita aos turistas. E revelou verdadeiros artistas adormecidos na pele de pessoas comuns.

 

Na primeira viagem, apenas uma passageira

 

Ao mesmo tempo que liminares na Justiça o liberaram de voltar a usar a denominação de Linha Bella, investindo recursos que não tinha, comprou uma jardineira usada, deu una boa recuperada no veículo, pintou a carroceria de forma bem chamativa, contratou pessoal, fez testes, para azeitar a operação e, junto com a esposa, preparou a Cantina Linha Bella para receber turistas com cantoria e comida produzida em fogão de lenha.

Colocado o serviço na rua, foi atrás de parceiros capazes de vender o passeio. Dentre estes, principalmente as empresas de receptivo e as agências de viagem de toda a região. Assim, em abril de 2012, o Tour Linha Bella fez sua primeira viagem. A bordo, apenas uma cliente. Ela gostou tanto que, mal retornou ao hotel, postou um vídeo no You Tube, acessível ainda hoje — diz o Antônio que é só pesquisar com paciência para encontrar.

Aliás, Antônio revelou estar buscando novo manter contato com esta pessoa. Quer trazê-la às suas expensas a Gramado, num forma de homenageá-la por ter sido a passageira número um do empreendimento. Quem sabe agora, como esse seu desejo sendo divulgado, ele finalmente a reencontre. A partir dali, pela qualidade do roteiro, a simpatia da equipe e os sabores do almoço, os números estão em crescimento seguro.

 

Tour Linha Bella: quase 4 mil pessoas por ano

 

O Tour Linha Bella já está transportando quase 4 mil pessoas a cada ano. Gente que, ao final, garante retornar em nova oportunidade. E se transforma no melhor veículo de propaganda da empresa, pois fazem a indicação para familiares, colegas de trabalho, amigos, conhecidos, vizinhos etc. Isso, tanto em termos do boca a boca como um verdadeiro bombardeio de fotos e vídeos postados nas mais diversas redes sociais.

A par de todo esse sucesso, Luciana e Antônio continuam enfrentando problemas difíceis de entender. Alguns, gerados pela Prefeitura de Gramado, tentando impedir a operação. Não entendi direito a razão, e só ouvi o lado deles. Chegaram até a exigir assinaturas em documentos autorizando licitar o roteiro. No momento, uma segunda jardineira está impedida de rodar em virtude de mais um ação do Poder Municipal.

Fica uma imagem do Município interferindo na vida do empreendedor. Em vez de fiscalizar se está sendo cumprida a legislação, os veículos são apropriados, há segurança no transporte e os alimentos têm qualidade, querem impedi-los de trabalhar. Isso não tem cabimento num País democrático, em que a livre iniciativa precisa ser incentivada, e não tolhida na sua capacidade de gerar empregos, criar renda e distribuir riqueza.

 

Algumas imagens da história do Tour Linha Bella

 

Tour Linha Bella é resultado do esforço de um casal sem medo de empreender

Luciana Cavichion da Rosa e Antônio Nadir Garcia da Rosa no interior da fábrica de massas da família

 

Tour Linha Bella é resultado do esforço de um casal sem medo de empreender

Luciana Cavichion da Rosa e sua mãe, Iria Cavichion — infelizmente, já falecida —, trabalhando na fábrica de massas

 

Tour Linha Bella é resultado do esforço de um casal sem medo de empreender

A Cantina Linha Bela quase pronta, tendo, na porta, o pais da Luciana, Ari Cavichion e Iria Cavichion, o casal Luciana Cavichion da Rosa e Antônio Garcia da Rosa, e o filho de Luciana e Antônio, Vítor Cavichion da Rosa

 

Tour Linha Bella é resultado do esforço de um casal sem medo de empreender

Ponto alto do passeio do Roteiro de Agroturismo Tour Linha Bella: almoço à base de culinária italiana, com as delícias produzidas em fogão à lenha

 


 

 

Matéria produzida a partir da participação na edição 2015 do Festival de Turismo de Gramado, dias 5 a 7 de novembro, no Centro de Eventos Sierra Park, no Município de Gramado.